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Opinião23/02/2018 | 15h52Atualizada em 23/02/2018 | 15h52

Nivaldo Pereira: A dor da compaixão

 Dói, mas o que seria do homem sem essa estranha faculdade de sofrer com o sofrimento dos outros?

Nivaldo Pereira: A dor da compaixão /
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Foi ali, na Sinimbu, perto da Igreja de São Pelegrino, que eu vi o homem comendo lixo. Estava acocorado à frente do container verde, o saco plástico no chão, aberto, de onde ele revirava os restos que levava à boca com voracidade. Essa palavra se impôs: voracidade. E foi ela que me trouxe de imediato à lembrança o poema do Manuel Bandeira, aquele do bicho que catava comida entre os detritos e que não era um cão, não era um gato, não era um rato, mas era – meu Deus! – um homem! 

Na indiferença da grande cidade, já me acostumei a ver gente rasgando sacos de lixo orgânico em busca de restos ainda comestíveis. Mas o impacto aqui se deu pela atitude do homem, como no poema: “quando achava alguma coisa, não examinava nem cheirava: engolia com voracidade”. Foi um soco em meu estômago bem alimentado. Não consegui agir como de hábito, covardemente passando ao largo desses tantos exemplos cotidianos de nosso mundo injusto e desigual. Paralisei. Tinha na mão uma sacola de maçãs compradas segundos antes na feira do agricultor, a poucos metros dali. Sem chão, sem saber se entregava as maçãs ao homem esfomeado ou se perguntava antes se ele as queria, ouvi a voz de uma senhora que também via a cena: “Assim não, moço, põe o lixo de volta, que eu te dou um cacho de uvas.” 

A mulher continuou, com emoção na voz: “Quer da uva verde ou da vermelha?”. Eu tentava abrir o nó do saco das maçãs, com um nó bem maior na garganta. O homem estendeu as mãos sujas em minha direção, recebeu as frutas que ofereci, mudos eu e ele.Segui andando, arrasado. Mais adiante, me virei. A mulher ainda ali, repartindo as uvas. Uma culpa atroz me atormentava. Por que não lhe paguei um sanduíche? Por que não entreguei o saco inteiro de maçãs? 

Fui andando, de alma dolorida, o poema do Bandeira martelando. “Vi ontem um bicho na imundície do pátio”. Deu vontade de chorar. Aí lembrei que o Sol brilha em Peixes, vertendo compaixão e sintonia com todas as criaturas. Dói, mas o que seria do homem sem essa estranha faculdade de sofrer com o sofrimento dos outros?

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