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Opinião20/02/2018 | 08h00Atualizada em 20/02/2018 | 08h00

Natalia Borges Polesso: nossos dispositivos

Ando fazendo um exercício para entender melhor minhas falas e ações no mundo

Natalia Borges Polesso

nbpoless@gmail.com

A censura voltou. Acho. É complicado repensar isso no momento. O que eu tenho certeza que está entre nós hoje é um dispositivo movido a medo e intervenção. É até um pouco irônico que isso aconteça. É estranho, mas há uma relação. Enquanto uns falam todo o tipo de asneira que vem à cabeça, enquanto uns defendem ditador, torturador, usurpador, até estuprador!, enquanto uns falam abertamente que a vítima pode ter culpa sim, e que "nem todo homem", enquanto alguns ainda acreditam que tudo mesmo foi contra a corrupção; alguns outros se autocensuram. Sim. Já aconteceu comigo. E com vocês? 

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Pra mim começou com um medo de dizer algo que poderia provocar erroneamente ou ofender outra pessoa, depois passei a não falar mais de coisas polêmicas com certos indivíduos, até que comecei a me questionar se, ao ser perguntada, deveria tomar uma posição mais extrema ou até mesmo se deveria abordar certos assuntos que para mim são corriqueiros. Depois passei a não dar mais a mão pra Dani em certas cidades que não conhecíamos, e passei a perguntar se era seguro ser quem eu era ali.

Ando fazendo um exercício para entender melhor minhas falas e ações no mundo. O exercício consiste em formular frases de maneiras diferentes, por exemplo: 

O Vampirão da Tuiuti desistiu de usar a faixa presidencial no desfile. O Vampirão da Tuiuti não pôde usar a faixa presidencial durante o desfile. O Vampirão da Tuiuti sentiu medo, por isso não usou a faixa presidencial no desfile. O Vampirão da Tuiuti foi impedido de usar a faixa presidencial durante o desfile. Qual dessas seria a mais acurada afirmação? 

Se não podemos mais criar alegorias, se não podemos mais expressar nossas insatisfações real ou simbolicamente, se estamos sendo agredidos até no direito de expressão, aqui neste país, é porque extrapolamos uma barreira. Melhor dizendo, ao contrário! Estamos acuados. Invadiram nosso espaço, físico e mental. E povo acuado, dominado, com medo, é massa mais fácil para manobrar. Por outro lado, povo acuado, dominado, com medo, contido, quando explode, não é fácil de conter.

Da minha casa, na noite de domingo, ouvi o fim do carnaval. E uso a palavra "fim" aqui de modo dramático. Fico me perguntando o que falta à nossa gente? Thoreau disse que desobediência civil é uma forma de protestar contra a opressão, e isso foi lá no século 19, será que estamos ainda cientes disso? Ou nos tornamos vítimas de dispositivos de repressão? Que tipo de desobediência cabe a nós hoje? E que tipo de exercício precisamos praticar mais para que esse cansaço político e cidadão não nos torne reféns da nossa própria violência e opressão?

 
 
 

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