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Opinião27/02/2018 | 09h00Atualizada em 27/02/2018 | 09h00

Natalia Borges Polesso: era uma vez 

Neste país, algumas coisas aconteciam havia tanto tempo, que nem se podia mais lembrar onde tudo começará

Natalia Borges Polesso

nbpoless@gmail.com

 Era uma vez um país longínquo, cheio de cores e de gentes. Neste país, algumas coisas aconteciam havia tanto tempo, que nem se podia mais lembrar onde tudo começara. Diziam os mais velhos que tudo sempre fora daquele jeito e que nunca nada havia mudado, portanto, acreditava-se que nada jamais mudaria. Quem porventura acreditasse no contrário, era tachado de louco e sabe-se lá mais o que.

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Certa feita, neste país, um helicóptero cheio de um pó branco, de um sujeito que se dizia benfeitor do povo, pousara em terras de outro sujeito que se dizia benfeitor do povo, a substância proibida foi renegada três vezes por seus supostos proprietários, e como num passe de mágica, tudo se desfez. E junto foi-se a memória. Mas isso não se dizia. Outra feita, neste país, riquíssimos magistrados recebiam somas imensuráveis de dinheiro, somas absurdamente ridículas de dinheiro, todo o mês, para que pudessem colar nas paredes de suas moradas e da morada de seus filhos e talvez de algum parente distante, ou ainda de uma morada vazia para chamar de sua. Havia tanto dinheiro nas paredes daquelas casas naquele país, que não se podia duvidar que aquilo fosse normal. Era merecimento. O povo aplaudia. Mas o outro povo não gostava. Neste país, havia tipos de gente, e alguns tipos eram menos que os outros, e tinham seus direitos invalidados. Certa feita, neste país, sitiaram uma cidade. Ela estava jogada às traças, aos troços também, ninguém nunca se lembrava de seus moradores, só em dias de festa, em dias de entrega, e entregavam tudo: a festa, a fé; entregavam até meninas. Porém, durante o cerco, toda a atenção estava voltada àquela cidade, sem festa alguma, e revistavam crianças e lancheiras, e mochilas certamente! Revistavam tudo! A guarda mostrando as armas! Helicópteros sobrevoando quiçá com pozinhos mágicos cheios de esquecimento, quiçá. Neste país, certa feita, começaram a banir algumas palavras e proibiram professores de ensiná-las. Porque eram palavras feias e más e não serviam para nada, nada além de manchar a memória, que deveria ser única e branca. Eram palavras erradas. Neste país, o rei posto – era um país com rei! – mesmo morto, governava. Neste país estranho e longínquo.

E vivíamos neste país e éramos suas gentes.

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