Gilmar Marcílio: sentido de realidade - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião09/02/2018 | 10h46Atualizada em 09/02/2018 | 10h49

Gilmar Marcílio: sentido de realidade

Muitas vezes isso gera um conflito. O que escolher? Qual o melhor caminho a seguir?

Minha amiga Alba, em seus 95 anos, me confiou estas palavras: "Passei por muitos dissabores na vida, muito sofrimento. Mas de uma coisa me orgulho: nunca perdi o sentido de realidade. Enfrentei tudo exatamente como se apresentava diante de mim. Válvulas de escape não me interessam, pois apenas encobrem o que mais adiante terei que encarar." Bonito isso. Bonito e corajoso. Quem de nós consegue olhar o sol de frente, sem filtrar a luz que dele emana? Assim também é com as situações que nos causam dor; difícil aceitar quando elas nos desestruturam. Procuramos mecanismos de defesa, negando o que se revela evidente. É uma forma de sobrevivência, pois muitos simplesmente não têm energia psíquica para resolver o que parece estar além de suas forças. Então se desviam e fazem de conta que não é com eles. Ou minimizam o drama. Melhor é não buscar evasivas, pois a existência é um embate permanente: ao menor descuido somos derrotados.

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Há os que conseguem desentranhar de si uma capacidade que nem eles mesmos sabem de onde se origina. Esse enfrentamento com a verdade começa com o uso correto da linguagem. Não colocam panos quentes sobre nada. Expressam com simplicidade e limpidez o que se impõe. Um câncer jamais será chamado de doença ruim. A perda de um filho receberá o nome de tragédia. E assim eles seguem superando obstáculo após obstáculo. Vitória alcançada e é comum vermos em seus rostos sinais de apaziguamento. Não trapaceiam com as emoções. Colhem-nas com naturalidade, sem, no entanto, se tornarem amargos. Ao contrário: libertam-se do peso das questões mal resolvidas. Essas que, a despeito de nossa insistência em camuflá-las, acabam retornando.

Ao longo dos anos, terei conseguido ser fiel a tal propósito? Algumas vezes, nem sempre. Diante de episódios em que me sentia paralisado, persistindo no erro, dizia a mim mesmo: "Quando tudo isso passar, lembre-se que ninguém o obrigou a fazer isso. O poder de decisão está dentro de cada um". Pareço estar negando Freud. Mas, não. O inconsciente determina muitos de nossos comportamentos. Mas comumente fica um lampejo de bom senso, algo que nos diz, veja bem, não vá se arrepender depois. E quanto mais permanecemos colados aos fatos, mais chance teremos de tomar as decisões certas. Existe a biologia e existe o campo da subjetividade. Muitas vezes isso gera um conflito danado dentro da gente. O que escolher? Qual o melhor caminho a seguir? O impulso costuma acometer os mais jovens. A maturidade nos tornar mais precavidos. Afinal, os deslizes devem servir de mestres, se atentos estamos. Mas nem sempre é assim. Persiste em nós uma espécie de orgulho atávico que nos impede de reconhecer o equívoco, por medo de sermos diminuídos diante dos outros.

Quero ser como a Alba: continuar vendo tudo com poesia, com verdade, a despeito das feridas, das injustiças, da indiferença do mundo.

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