Gilmar Marcílio: quando tudo está bem - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião23/02/2018 | 09h00Atualizada em 23/02/2018 | 09h00

Gilmar Marcílio: quando tudo está bem

O que dizer quando tudo é alma e temos a certeza de que a vida é boa?

A tarde caía com a doçura ardente do verão. A paisagem idílica do interior de nossa cidade costuma calar minhas palavras, tornando-me um ser meditativo. Segui até o sítio da amiga Maria de Fátima, que tem a fisionomia dos lugares que nos abraçam, rivalizando com a imagem que fazemos do paraíso. Encontros de afetividade sempre me sensibilizam, pois guardam a possibilidade de revelar nossas delicadezas, o que de elevado pode nascer quando as pessoas, apaziguadas, extraem de si o puro diamante.

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A morada espaçosa, filtrando as luzes do crepúsculo, nos recebeu com o bálsamo dos temperos da cozinha, do desejo de estender o olhar além do verde, nos tons ocres do sol que adormecia. O que dizer quando tudo é alma e temos a certeza de que a vida é boa? Procurei na mente algum verso esquecido para plenificar o instante. Lembrei de Adélia, Florbela e Bandeira. Continuei treinando meus olhos para colher o detalhe de um quadro, uma escultura, de uma roseira que insistia em sua exuberância. Uma cortina esvoaçante que parecia dançar para a lua. 

Ao ver um antigo piano de cauda e, sabendo que nossa anfitriã estuda música, pedimos para ela tocar algumas peças clássicas. Tive a impressão de que a respiração de todos se tornou mais curta, numa espécie de suspensão para absorver aqueles acordes transcendentais. Certos de termos sido presenteados com algo que fará residência permanente em nós, despedimo-nos, querendo ter o dom de imobilizar tudo na memória. Mesmo que as falsas urgências se imponham logo ali, o que experenciamos tem a tessitura das coisas destinadas a nos devolver a quietude e a leveza. 

Mas o andar das horas ainda me reservava outros presentes. Retornando com os vidros do carro abertos, fui capturado pelo perfume dos lírios que florescem em abundância neste fevereiro carregado de promessas de felicidade. Manchas brancas e cintilantes de luz pareciam sinalizar meu caminho de volta. Lembrei da tia Mima, que amava essas flores e as colhia às braçadas para enfeitar a sala e os quartos. 

Há os que parecem destinados a ser grandes em seu anonimato. A tia era uma dessas criaturas. Criando toalhas e colchas do mais fino crochê, foi se tornando uma velhinha que tinha a capacidade de transmutar a melancolia numa tácita aceitação. É sempre nela que penso quando ando pelas pequenas ruas onde moro e, ano após ano, sou surpreendido com a presença desses cálices leitosos que emanam o odor das pradarias e dos córregos.

Ao deitar, lembrei o quanto nos cabe agradecer. Longe das notícias sujas que chegam aos borbotões, podemos compor um cenário onde cabe a beleza e o gosto pelo que é simples. E essa talvez seja a mais alta sofisticação a que podemos aspirar. Mas há que se ter vontade para alcançar esse estágio. Tudo o mais é desordem e inútil preocupação. Quero meus dias assim, longe do drama mesquinho de poder e vaidade. Sonho demais? Talvez. Mas é aqui onde posso abrigar o que há de melhor em mim. 

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