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Opinião28/02/2018 | 09h00Atualizada em 28/02/2018 | 09h00

Ciro Fabres: você vai molhar o meu papel 

Creiam, algo assim tocava  no rádio, e  Toquinho se apresentava na tevê

 A música, ou a falta dela, é, seguramente, um universo que retrata com alguma dose de fidelidade a dimensão de nossa mediocridade geral. Não exatamente a música em si, mas a indústria do entretenimento, aquela que decide o que vai tocar nas rádios e na tevê. Então, dizendo melhor, a música que nos é disponibilizada em rádio e tevê, essa sim retrata o tamanho, o estágio da mediocridade geral.

 A música de algum tempo atrás nos oferecia um clássico que ficou eternizado na lembrança de quem viveu uma época muito especial, a da volta as aulas, todo mês de março, mais recentemente antecipada para fevereiro. Chegando ao extremo de começarem as aulas na segunda-feira de Carnaval, como se viu este ano em Caxias. O mundo está mesmo de pernas para o ar.

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Pois houve um tempo em que o ano letivo esperava religiosamente o mês de março chegar para só então as escolas abrirem as portas para seus alunos. Pois março começa amanhã. O primeiro dia sempre foi encantado, ainda o é hoje. E as aulas, então, seguiam até novembro, raramente entrando em dezembro, a não ser para quem ficava em recuperação, mais remotamente, a “segunda época”.

Mas a música que nos é oferecida, era sobre isso que discorríamos. A média da produção musical geral pode ser o atestado de uma época. Anos atrás, tocava no rádio, se ouvia o disco e se tornava familiar aos ouvidos da média da população uma música de Toquinho e seu violão, eterno parceiro de Vinicius de Morais, chamada O Caderno. Apropriada para esse período de volta às aulas, era poesia pura a rechear uma melodia linda para retratar um momento especial da vida de cada um. Inesquecível. Entre outras coisas, tinha passagens inigualáveis, algo assim: “A vida se abrirá num feroz carrossel / E você vai molhar meu papel.” Ou “O que está escrito em mim / Comigo ficará guardado / Se lhe dá prazer. / A vida segue sempre em frente / O que se há de fazer.” Creiam, algo assim tocava no rádio, e Toquinho se apresentava na tevê. Em que rádio toca Toquinho hoje em dia?

Relembrando Toquinho, a gente se lembra de poesia, que poesia ainda sobrevive em alguma trincheira da realidade, se lembra que talvez não seja pecado pedir um pouco de poesia pra viver, daquelas que descrevem fragmentos da vida com fina sensibilidade.

Poesia numa hora dessas?, diria o espetacular Luis Fernando Verissimo. É um profeta. 

Há momentos em que a nostalgia é um dever. Mas a vida segue sempre em frente, o que se há de fazer.

 
 
 

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