André Costantin: Raul no Kaiser - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião22/02/2018 | 08h15Atualizada em 22/02/2018 | 08h15

André Costantin: Raul no Kaiser

Raul voltou. Voltou antes de Jesus! Foi lá na Vila Kaiser, semana passada.

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Raul voltou. Voltou antes de Jesus! Foi lá na Vila Kaiser, semana passada. Vou almoçar na casa de Terezinha, a cabeleireira mais antiga daquele lado da cidade, onde começa outra Caxias. Minha mãe, no caso. No asfalto ruminante, que era paralelepípedo, e antes disso fora chão batido, ali, no meio fio, repousa um homem – distraidamente atento a tudo, como quem é da rua sabe.

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À mesa de Terezinha, de sempre pratos fundos, não importando se sopa, carne ou feijão, está a panela de pien à maneira camponesa, a carne no molho de banha; uma massa espichada a mão. No fim do almoço, ela prepara um prato para o homem lá de fora, entre condoída e contrariada, piedade católica em choque com a espinha escorpiana, pois sabe ela, pioneira daquela rua, que ali está o primeiro-prato para a temporada incerta de mais um conviva pelas bordas do terreno da casa, perfumado de cachaça e biter.

Vou levando agora o prato feito para o homem, que, antevendo tudo, já se aprochega no portão da casa. Ele me fala do seu reumatismo e tal, protocolo manjado que logo dispensamos, para o bem do humor dos dois, ele e eu. Mas... Mas este cara cabeludo grisalho e barba, estes olhos, o jeito do olhar... São de alguém; algum velho conhecido.

Passa o tempo e o vento quente, Clarice embarca no carro e vamos embora. Depois da esquina, noutra rua do Kaiser, lá está o homem sentado, feito um Zaratustra. "Pai, é o Raul Seixas; é ele", exalta-se Clarice, mirando do banco de trás pela janela ovalada do Fusca.

Raul, tendo feito seu penúltimo show em vida na fria Pérola das Colônias, resolveu voltar aqui, na Vila Kaiser! – hoje dizem bairro. Escolheu bem, o Raul. Pois que a Vila Kaiser sempre foi desses mundos suburbanos que avivam a cidade. O nome da vila terá sido herança da tradicional família germânica que reinava na redondeza. Por ali havia a ferraria do seu Russo, a casa soturna da velha Húngara e de seu marido afiador das mais finas lâminas e ferramentas, o casarão dos polacos; a italianada e os pêlo-duros se entreverando no fazer a vida, ao fundo os trilhos do trem onde vez por outra aparecia um corpo jogado – tudo remetia ao rescaldo de alguma epopeia civilizatória havida noutro lado do mundo, mas que ali, no tempo urgente de mais outro Brasil mágico, já era outra humanidade viva e dramática.

O baiano Raul, que era do mundo, foi lá no Kaiser. Três dias depois, Aurora, de dois anos, descobriu em casa, fascinada e dançante, um vinil rodando no tocadisco – rodando não, ródando Raul: plunct, plact zum...

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