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Opinião09/02/2018 | 10h24Atualizada em 09/02/2018 | 11h48

André Costantin: era tudo pinheiro

Os ciclos da madeira maquinaram o progresso e a ruína no relevo do sul do Brasil

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

O título desta crônica sai da boca do ancião Juvenil Vilmos da Silva, dono do bolicho antigo na estrada entre São Chico e Jaquirana, onde os quatro ventos fazem as curvas. Não por acaso o armazém fica na Lomba do Vento, lados do Faxinal dos Pelúcios – cada nome, uma paisagem da alma.

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"Era tudo pinheiro", memória fluida entre as paredes de madeira, diz muito além das paisagens outrora demarcadas pelas florestas de araucárias. A expressão fala de um modo de vida, de uma mitologia ecológica que ainda está por ser melhor decifrada e narrada; de uma epopeia cujos últimos atores vão dando adeus – e por isso eu os escuto.

Os ciclos da madeira maquinaram o progresso e a ruína no relevo do sul Brasil ao longo do século 20, semeando picadas e serrarias que se tornariam cidades vivas ou vilarejos fantasmas, à medida que o ouro verde dos pinheirais revelasse seus veios e esgotamentos.

Tivemos o nosso Eldorado. Romarias de caminhões carregados de pinheiros cruzavam a vista das janelas da casa de Idelar Rossetin, um pioneiro da Estrada do Mato Grosso, no entorno de Curitiba. Foi por anos, décadas – comboios ruminantes de uma companhia americana levavam as toras até os navios do Porto de Paranaguá. Os pinheiros abatidos estão nos olhos de Idelar, na casa de alvenaria forrada de tábuas por dentro, hoje uma ilha no horizonte de arranha-céus que marcham pela capital dos pinhais.

Por certo a doce madeira das velhas araucárias habita desde a casa de Idelar até os casarões da Flórida e Oklahoma, em todo o meio oeste americano, enfrentando os furacões; estará talvez nas estruturas dos telhados de palácios de Buenos Aires a Amsterdã; nos sótãos, cozinhas e salas simples dos bairros de Caxias do Sul, a urbe que recebeu em suas bordas os exércitos operários vomitados da faina madeireira. Debandavam de Bom Jesus, vinham lá do Lajeadinho dos Ausentes, onde Viriato Ernesto Vieria, na varanda da casa de madeira, via os homens mutilados pelas serras indo embora na direção de Caxias.

Em uma vila de Irati, no coração do Paraná, entro em um palacete fabuloso, tendo por guia o fotógrafo Nego Miranda, que muito registrou a arquitetura de madeira daquele território etnográfico. Foi como se entrássemos em um sonho de madeira: a enorme fachada de pinho em quatro pavimentos, colunas, escadarias, entalhes, uma virtuose arquitetônica devorada por infiltrações e cupins, em silencioso diálogo com a ruína de um Brasil que nunca soube cristalizar as próprias riquezas na sua história.

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