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Opinião15/02/2018 | 09h35Atualizada em 15/02/2018 | 09h35

André Costantin: das ruas ruínas

Nada mais melancólico do que enxergar no agora, no gastar da vida, a arquitetura nascente e feia das nossas ruínas pelas ruas da cidade

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Entro em uma rua secreta e sinistra, escondida pelo mato, paralela à Rota do Sol, entre as capelas de Monte Bérico e de Nossa Senhora da Saúde – lado oeste da cidade. Eu e dois amigos bikers ficamos intrigados com o antigo calçamento de basalto, bem talhado, assentado no conhecimento de velhos ofícios, sinuoso e insinuante naquele caos de raízes, cipós e restos de macumba. Teria sido o acesso de uma chácara, a rua privada de uma mansão?

Ruínas são belas ou trágicas. Ancoradas na imaginação do que terá sido de nós em algum lugar do passado, sempre nos dizem da gênese de um tempo extraviado em glórias existenciais, surtos civilizatórios e religiosos, devaneios industriais – ou apenas esculturas de um abandono demasiado humano.

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Mas nada mais melancólico do que enxergar no agora, no gastar da vida, a arquitetura nascente e feia das nossas ruínas pelas ruas da cidade. Já Rubem Braga profetizou “ai de ti Copacabana”; pois aqui, no quintal do pensamento periférico, eu digo ai de ti Caxias do Sul, semeadora de tristes ruínas. 

No fim da rua escondida nossas rodas se equilibram em uma trilha de pedras e batinga, costeando os fundos da cerca fortificada de um mega-pavilhão, tão forte e tão imponente como os caminhões Scania que ali dentro se abrigam, feito comboios de boitatás suecas – seres encantados de uma civilização tecnológica que se incorpora às ruínas e mitologias industriais ao sul do mundo. 

Logo adiante da embaixada fabril da Suécia, a rua misteriosa apresenta a visão pós-mundo de um Brasil em ruínas de concreto armado. Ali, algumas vacas suburbanas, entre macegas e ninhos de vespas, guardam o macabro sítio de extensas lajes de cimento escurecidas pelo tempo, vigas e colunas sustentando o nada. Vergalhões expostos denunciam as estruturas inacabadas do que seria um hospital de elite da cidade – se não falham as memórias noticiosas de muitos anos atrás.

A ironia desta ruína da nossa ordem e progresso é estar tão escondida e tão próxima da ruína – turística e sazonal – do parque da Festa da Uva e da obscura cancha coberta de rodeios, que a cidade engoliu como uma ruína mental-metálica. Pois em nosso mapa urbano agora está uma Avenida Itália quase sem identidade urbanística, ou a falsa modernidade dos edifícios envidraçados que engoliram os casarões falimentares dos Eberle, perto da prefeitura – lugar que parece ter se tornado o cerne do nosso horizonte involutivo, desde que se começou a tingir a água do chafariz da praça em tons de vinho, sob o queixo de Dante.

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