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Opinião05/01/2018 | 15h00Atualizada em 05/01/2018 | 15h00

Pedro Guerra: o ano da cura

Decidi revirar todas as minhas dores, ressuscitar todos os procedimentos que estavam sendo adiados e fui em busca de resultados efetivos

Pedro Guerra: o ano da cura Antonio Giacomin/Especial
Foto: Antonio Giacomin / Especial

Faltava pouco mais de meia hora para a meia-noite do último dia do ano. A família estava reunida na sala, os primos brincando, os pais assistindo aos programas de tevê, e o mesmo tio de sempre dormindo na poltrona. Já eu estava encolhido em um dos cantos do sofá, tremendo e esperando o termômetro confirmar que, sim, eu estava ardendo em febre.

Assim que o ano virou, saí sem me despedir e fui direto para o plantão. Minha garganta estava obstruída, e em vez de dar boas-vindas ao novo ano, dei boas-vindas a uma forte amigdalite.

Eu quis mesmo foi chorar. Enquanto todos os meus amigos ligavam convidando para aproveitar o primeiro dia do ano, eu estava tentando lidar com os efeitos colaterais da penicilina. Triste por começar o ano daquele jeito, recebi uma ligação de alguém que me fez pensar diferente. Após anunciar meu paradeiro, o que escutei foi irreverente: "você já parou para pensar o contrário? Que você não está começando o ano doente, e sim se curando?". A princípio, descartei a ideia. Até porque eu estava de cama, com uma bolsa de água quente como melhor amiga. Porém, um tempo depois, a visão passou a fazer sentido.

Nunca fui muito positivista, e tenho plena certeza de que o problema da geração atual é o drama em excesso. Porém, naquela noite, logo nos primeiros minutos de um novo ano, me prometi que este seria o ano da cura. Decidi revirar todas as minhas dores, ressuscitar todos os procedimentos que estavam sendo adiados e fui em busca de resultados efetivos. E olha que eu nem falo de cirurgia ou qualquer remédio. Aprendi com essa história toda que a gente sempre deixa para depois a cura mais importante: aquilo que levamos lá dentro e que nós mesmos decidimos produzir.

Procurei me energizar e busquei me conhecer. Afinal, eu passo o tempo todo comigo mesmo, e quando a gente chega naquela fase que nem sabe mais quem nós somos e o que queremos, é hora de rever quais caminhos estamos tomando. Acredito que nada seja por acaso, e até hoje me agradeço pelo melhor presente de ano novo: a minha amigdalite. Graças a ela, eu entendi que a dimensão da nossa dor somos nós quem comandamos. E que às vezes, mesmo tendo tudo para se deixar tomar pela frustração, nós temos mesmo é que agradecer. Feliz Ano-Novo.

 
 
 

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