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Opinião12/01/2018 | 14h03Atualizada em 13/01/2018 | 17h08

Nivaldo Pereira: a cabra e o Cabral

Cabral gostava de palavras como pedra, osso, dente, esqueleto, faca, foice, seco e vazio

Nivaldo Pereira: a cabra e o Cabral Charles Segat/
Foto: Charles Segat
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Compreender a simbologia de Capricórnio é observar uma cabra, em sua força e resistência na paisagem árida. É olhar as estruturas verticais de pedra bruta, por onde a cabra se equilibra no necessário subir. O poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, capricorniano de 9 de janeiro, escreveu nos Poemas da Cabra: "Não é pelo vício da pedra / por preferir a pedra à folha. / É que a cabra é expulsa do verde, / trancada do lado de fora." E segue a definição caprina desse poeta que tinha a cabra no sobrenome: "Viver para a cabra não é / re-ruminar-se introspectiva" e "A vida da cabra não deixa / lazer para ser fina ou lírica." Para Cabral, a cabra é modelo de estruturas: "A fazer de seu couro sola, / a armar-se em couraças, escamas: / como se dá com certas coisas / e muitas condições humanas." Viva o cabra Cabral e sua perfeita poesia capricorniana!

Considerado um dos maiores poetas em língua portuguesa, autor do clássico Morte e Vida Severina, ele fez de sua obra expressão da visão sensorial e realista de Capricórnio. Não cabem lirismos e confissões emocionais em sua poesia, mas, sim, o tempo e o espaço, grandezas de Saturno a tudo dando formas e limites. Há o rigor da palavra exata, seca e cerebral. Ele mesmo dizia: "O objeto toca você por todos os sentidos. O abstrato, não. Por isso, prefiro sempre uma maçã a uma tristeza". Amante da arquitetura, Cabral também dizia que sua inspiração filosófica tinha sido o arquiteto francês Le Corbusier. Considerava-se um poeta-escultor, que lapida a palavra em busca da forma mais próxima do real.

Cabral gostava de palavras como pedra, osso, dente, esqueleto, faca, foice, seco e vazio. Entre seus livros, há títulos como A Educação pela Pedra, A Escola das Facas e Agrestes. Estudiosos dizem que seu controle estético na poesia era um modo de lutar contra as fortes emoções e paixões que de fato sentia. Aliás, a cabra original de Capricórnio arrastava uma cauda de peixe, sensível e frágil. Expor emoções é fraquejar. E uma boa cabra não fraqueja. E vamos ao que interessa? 

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