Gilmar Marcílio: quem cedo madruga - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião12/01/2018 | 06h00Atualizada em 12/01/2018 | 06h00

Gilmar Marcílio: quem cedo madruga

Nascer com o dia e expulsar a preguiça: vigor, gosto, prazer

Durmo tarde e acordo cedo. Sempre. Tenho encantamento pelas manhãs. Há um certo frescor no ar que me lembra inauguração, batizado, festa. Meu primeiro pensamento costuma ser de felicidade. Se a saúde anda bem e não há estremecimentos afetivos, comemoro. Uma refeição leve, bom dia para os meus cachorros e lá vou eu fazer a minha caminhada. Não importa a estação, perfumes colorem a estrada silenciosa. Quase não encontro carros. Cumprimento um ou outro vizinho e, na medida em que avanço, sou tomado por um sentimento de gratidão. E se me sinto tentado a usar a palavra religioso é porque tudo é pura gratuidade. Vou escutando música e mastigando os tons de verde que enchem os olhos e a alma. Aqui e ali colho algum fruto silvestre, um broto que provo o sabor. Sinto que as pernas são minhas amigas, me levam para onde quero. Um cansaço bom toma conta de mim quando o calor do sol começa a se intensificar. Cada membro do corpo vibra. Tenho consciência do quanto sou privilegiado por poder fazer isso enquanto outros precisam ganhar a vida em trabalhos monótonos, sem prazer algum. Agradeço a Deus, aos deuses ou a própria existência por me permitir ter esses momentos da mais pura beleza. Comovo-me por paisagens que continuam parecendo novas, recito algum fragmento de poesia que guardo na mente. Sou um e sou muitos, pois o que trago dentro de mim não pode ser aprisionado em um nome, um eu.

Ah, a maravilha de tomar um prolongado banho. Parece um ato tão simples, realizado desde sempre. É mais do que isso. A água tem algo de sagrado, que purifica muito além da pele. Comigo é assim: se estou meio ruim do corpo ou da cabeça, uma boa ducha tem o dom de me devolver a paz perdida. Diria que até apressa o processo de melhora física. Não quero perder essa percepção que me impede de ver as coisas como se fossem banais. Nada é. Basta que fiquemos atentos.

E assim vou seguindo pelo ritmo suave das manhãs, num desejo ardente de que essa rotina se prolongue por muito tempo. É bom demais chegar em casa e encontrar portas e janelas abertas, recebendo a luz do dia. O vento que balança as cortinas e convida para dançar. Completar esse doce roteiro colhendo algumas verduras e temperos para o almoço. Fazer disso um ritual de alegria que se multiplica no rosto cheio de contentamento dos que partilham a refeição. Estender uma toalha sobre a mesa posta na varanda, escutando o canto dos sabiás. Continuar agradecendo por ter tanto, por saber apreciar o que a vida me deu. Aqui e ali uma dor, uma frustração, uma perda. Mas, acima de tudo a certeza de que estar vivo é o maior milagre. Tocar, apreciar as palavras e os encontros. Comover-se. Nascer com o dia e expulsar a preguiça. Vontade de potência. Vigor, gosto, prazer.

Que a velhice me encontre assim: faminto por despertar.

 
 
 

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