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Opinião10/01/2018 | 09h29Atualizada em 10/01/2018 | 09h29

Ciro Fabres: o vendedor de vassouras

Não estamos proibidos de encontrar o caminho. Eis uma verdade alentadora

Agora chegamos ao cúmulo dos "rituais satânicos" com crianças. Onde vamos parar? Qual o limite para nossos roteiros escabrosos? Não teremos limites, e nada do que é humano nos deve ser estranho, já lembrava, no longínquo Século 2, o pensador e poeta romano Terêncio. Isto é, não nos cabe a indiferença. Mas é que estamos tomando gosto pelas barbaridades, e elas passam a ser familiares. É desalentador.

Os "rituais satânicos" têm sido o assunto destes dias, mas será justo e necessário que não fique encoberta uma morte caxiense, de contornos pungentes. Foi no domingo de manhã, luz do dia, no bairro Fátima. Um vendedor de vassouras foi assassinado, aparentemente, em acesso de fúria do frequentador de um bar, que pediu para comprar fiado uma vassoura. Não contente, queria ficar com duas. O vendedor até assentiu em fazer fiado a primeira, mas achou que era demais a segunda. O primeiro, então, se retirou, e outro frequentador, indignado, foi atrás dele para buscar os R$ 4 da singela mercadoria. Isso teria desencadeado a fúria do comprador, que voltou distribuindo golpes de faca para todo lado.

Primeiro, que o vendedor de vassouras, de 60 anos, descrito por testemunhas como "uma pessoa pacata", era obrigado a trabalhar no domingo, longe da família, para sobreviver. Começa aí a sucessão de equívocos, que culminou com o acesso de fúria e as estocadas fatais. Uma pessoa ser assassinada aos 60 anos vendendo vassouras em um domingo precisa nos indignar. Precisa nos mover na direção de fazer nossa parte para um mundo mais humano e melhor.

A redação do vestibular da UFRGS, no mesmo domingo, colocou aos candidatos um texto de Martha Medeiros: "Quem me dera ser crédula, confiante. (...) Já fui assim otimista, mas o tempo passou e me cobrou alguma lucidez e coragem para encarar a realidade." Não significa lucidez como sinônimo de descrença, mas sim a capacidade de analisar a realidade e constatar que as condições para transformá-la não estão dadas. E, neste momento, não estão mesmo.

No entanto, não estamos proibidos de encontrar o caminho. Eis uma verdade alentadora, que também tem a ver com lucidez. Hoje, por exemplo, Medellín, na Colômbia, que já esteve entregue aos cartéis do tráfico, é uma cidade transformada. Precisa bastante, precisa o poder público querer, ser eficiente, enquadrar a malandragem, valorizar a educação, levar o Estado até as comunidades. Há bairros em Caxias do Sul onde o poder público não vai. Tem de ir, tem de querer entrar. Em um momento qualquer, sempre será possível uma virada até outra realidade, sem sacrifícios de crianças, sem morte de vendedor de vassouras e outras tantas barbaridades.

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