Ciro Fabres: despacito - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião03/01/2018 | 10h55Atualizada em 03/01/2018 | 10h55

Ciro Fabres: despacito

Amadurecimento é o tempo da natureza. A beleza da vida se descobre "despacito"

Sempre guardei especial predileção por uma palavra de origem espanhola, "despacito". Palavra simpática, sonora, popular, de conteúdo importante. É quase uma afeição que aprendi a cultivar por ela esses anos todos, por seu poder de síntese que sugere uma forma de entender o mundo, de tratar a realidade, de postar-se diante da existência. "Despacito" tem a ver comigo. Os que nasceram na região da fronteira, como eu, estão acostumados a conviver desde cedo com expressões de origem castelhana, que se infiltram por razões de proximidade cultural e geográfica no palavreado regional. A combinação é rica. A língua espanhola é um idioma belo e sedutor. "Despacito" sempre foi uma dessas palavras, "despacito no mas". Há dezenas de outras. 

Pois "despacito", a palavra, foi revelada avassaladoramente ao mundo em 2017 por conta do fenômeno planetário Despacito, a música do ano que levou todas as fronteiras por diante. De certa forma, a expressão vulgarizou-se pela apropriação generalizada, tornou-se corriqueira, perdeu em capacidade de surpreender. Experimentou uma redução de tamanho, de possibilidades. Mas seu conteúdo persiste intocado, menos mal. 

"Despacito" é uma palavra estratégica. Processos me agradam. Etapas são bem-vindas. Construções demoram, um tijolo de cada vez. Relações de verdade se constroem um dia depois do outro. Não tem jeito. O cotidiano é belo, embalado dia após dia pela dança do cotidiano. As coreografias são repetições de movimentos, ensaios demorados. Amadurecimento é o tempo da natureza. A beleza da vida se descobre "despacito", o que exige tempo, observação, contemplação, reflexão.

"Despacito" quer dizer devagarinho. Em nossos dias, é uma palavra subversiva. Onde já se viu, fazer devagar? É fora de moda! É uma palavra de outra época, mas cujo conteúdo se demonstra perene, ainda bem. O ritmo de nosso tempo é veloz, nas ruas, nos procedimentos, nas relações, nas operações, nos deslocamentos, nos prazos, nas tarefas, nos resultados. Tudo muito prático e muito rápido. Na cidade grande, é quase um imperativo. Essa rapaziada que vem chegando, embalada pela instantaneidade da tecnologia, quer viver tudo ao mesmo tempo agora. É uma armadilha sedutora. Assim é que viemos, há tempos, organizando – ou desorganizando – nosso mundo. Então, o pessoal recebe estímulos ambientais poderosos para menosprezar ou desvalorizar a paciência, o passo a passo, o "despacito". As virtudes da paciência restam escondidas, sonegadas. A vida, porém, revela-se na direção contrária, a quem tem a ousadia de "perder tempo".

"Despacito" sempre será uma boa sugestão. Para tudo na vida, "despacito" é uma boa recomendação. Viver a vida "despacito". Nesta primeira semana do ano, fica a sugestão: viver 2018 "despacito".

Um bom ano a todos.

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