Andrei Andrade*: Depois que o gato partiu  - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião24/01/2018 | 07h30Atualizada em 24/01/2018 | 10h44

Andrei Andrade*: Depois que o gato partiu 

O que mais incomodou foi a impressão de que deixar de anunciar meu pesar seria romper uma continuidade narrativa, como se a "novelização" tivesse finalmente vencido

Desde que nos primórdios o extinto Orkut nos permitia compartilhar um álbum de 12 fotos até os ilimitados stories, nossas rotinas estão cada vez menos privadas. Neste cenário de supercompartilhamento e exposição, quero contar o quão difícil foi reservar para minhas relações desconectadas um episódio importante da minha vida recente, que foi a perda do meu gato Bergamota, seis meses atrás.

Arisco e pouco afeito ao convívio, meus amigos conheceram o Bergamota mais pelas minhas postagens do que frequentando minha casa, onde ele no máximo entrava por alguma janela e corria para o cômodo vazio mais próximo. Quando Berga partiu ou morreu, sofri o luto passageiro de quem já perdeu outros companheiros de quatro patas, desde que uma gatinha apareceu no pátio com cinco filhotes para iniciar a tradição felina na minha casa, há quase duas décadas. A razão de ter preferido não expor o luto num texto emocionado eu ainda não sei responder, mas trago apontamentos.

Por um lado, antecipei um certo fastio da previsível cronologia dos compartilhamentos: emoticons tristes, condolências genéricas e apressadas, algum comentário sem noção. Não sou contra pêsames, mas fato é que sequer me senti assim tão devastado para justificar a enxurrada de lamentos que inundaria minha linha do tempo (prefiro encarar a morte com naturalidade, mas isso é outro assunto). Por outro, senti ter perdido o timing, uma vez que a substituição da esperança pela convicção de que ele não voltaria se deu aos poucos, já que o Berga, que sempre foi meio de casa e meio da rua, sumiu num fim de semana em que não havia ninguém em casa. 

O que mais me incomodou, contudo, foi ter a impressão de que deixar de anunciar meu pesar seria romper uma suposta continuidade narrativa, como se a "novelização" tivesse finalmente vencido. Em que momento a vida passou a ter de obedecer a um roteiro entregue ao espectador? Perguntei se eu estaria sendo falso ao compartilhar tantos momentos felizes e sonegar uma tristeza; se estaria servindo de prova para a máxima de que o Facebook nos faz representar um estado de felicidade que nunca é tão verdadeiro assim; ou se naquele episódio teria renegado à sociável persona digital que construí para que reassumisse minha velha personalidade reservada.

De positivo, experimentei algo parecido com liberdade, de ainda ser capaz de restringir uma informação a poucas pessoas mais próximas, algo para a importância não ser medida em curtidas ou comentários, nem para virar assunto no próximo encontro. Talvez isso ajude a explicar. A gente coloca nas redes sociais aquilo que gostaria de transformar em assunto. Quando algo machuca, a gente pode encontrar conforto falando a respeito ou calando. Eu prefiro calar. Mas nunca achei que as redes sociais tornariam isso tão difícil.

*O colunista Ciro Fabres está de férias

 
 
 

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