Andrei Andrade: a empatia corre na contramão - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião31/01/2018 | 07h00Atualizada em 31/01/2018 | 10h45

Andrei Andrade: a empatia corre na contramão

A verdadeira compaixão é um caminho difícil, que envolve reconhecer que na maior parte do tempo reproduzimos padrões de comportamento que sequer sabemos a origem

Parafraseando Bob Dylan, que perguntava quantas estradas um homem tem de caminhar até poder ser chamado de homem, questiono quão longo é o caminho até descobrir que a empatia é o mais verdadeiro valor que devemos perseguir. E talvez por nossa sociedade trilhar o caminho inverso, do individualismo e da competição, seja tão difícil caminhar lado a lado.

Arte de se colocar no lugar do outro, a empatia requer atenção. Não só o cuidado com aqueles que nos rodeiam, mas com aqueles que não parecem pertencer ao nosso mundo, e nisso reside a armadilha que caímos facilmente. Não fui e não acredito que muitos de nós tenhamos sido educados para a verdadeira empatia. Não falo das genéricas noções de respeito ao próximo e tolerância às diferenças que cedo ou tarde aprendemos (sei que não escrevo para trogloditas), mas sim de reconhecer no morador de rua, no pedinte, no viciado, no analfabeto, irmãos cujo sistema que os subjuga está quase tão distante deles quanto de nós (quando na verdade não existe "nós" ou "eles"). Se nem a aberração política em que estamos enfiados parece ter evidenciado de qual lado estamos mais próximos, onde foi que falhamos?

Como repórter, já estive em diversas escolas e conheci um pouco sobre a preocupação em oferecer aos estudantes o melhor acesso possível à tecnologia para torná-los competitivos diante de um mercado de trabalho que ninguém sabe muito bem como se desenha. O que ainda me põe em dúvida é a preocupação com a formação humana para além do individualismo tanto na escola quanto em casa (na mesma escola em que conheci uma sala toda equipada com tablets, conheci um grupo de WhatsApp de mães que fofocam contra professores e alunos diferentes dos seus filhos, só para dar um exemplo). A quem caberá o necessário choque de empatia?

Creio ser na infância que aprendemos a erguer barreiras que mais tarde se tornam difíceis de transpor, mesmo quando a consciência desperta em algum nível para a compaixão. Qual a tua reação imediata diante da abordagem de um pedinte? Retribuis o cumprimento do morador de rua? A reinserção social do detento te incomoda? Tu abres o vidro para o vendedor ambulante que te aborda no sinal vermelho? Não falo de comprar a bugiganga ou necessariamente dar a esmola (eu dou), mas falo de olhar nos olhos e buscar entender que estamos mais próximos e temos mais em comum do que imaginamos, e que o que nos separa são privilégios que não escolhemos ter, mas que temos o dever de não considerar um fator de exclusão.

A empatia é um caminho difícil, cujo trecho mais intrincado é reconhecer que na maior parte do tempo reproduzimos padrões de comportamento que sequer sabemos a origem, e que mesmo o mais intolerante pode ser uma vítima. Na mesma medida em que a sociedade apressa e a tecnologia distrai, a consciência parece se estreitar. E a relação com o outro corre o risco de ser cada vez mais alienada e antipática. 

 

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