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Opinião04/01/2018 | 10h00Atualizada em 04/01/2018 | 10h00

André Costantin: migalhas e ficções

"Vejo no chão um bilhete sujo da Mega-Sena: 03, 05, 37 ¿ os números marcados a caneta"

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Paro nos contêineres da Jacob Luchesi. A cidade parece melhor, meio esquecida, com seus carros entulhados nas bandas da Rota do Sol. Vou despejar pneus velhos do Fusca que só serviam para criar aranhas & outros eternos entulhos da casa. 

Vejo no chão um bilhete sujo da Mega-Sena: 03, 05, 37 – os números marcados a caneta. O resto foi a vida que seguiu. O bilhete traz uma conversa lateral do Réveillon, quando um ancião, dono de bons pedaços de uma cidade interiorana e terrenos à beira-mar, fazia contas e planos do que ele faria com o cobiçado prêmio da loteria de fim de ano. 

Outras migalhas de 2018 caem da mesa de Charles Bukowsky. A bela mulher que me presenteou no Natal uma camisa azul cintilante que eu não usaria nem no caixão, realizou também o oposto, entregando-me uma edição de Cartas na Rua (Post Office, 1971), de Bukowsky.

O romance verte uísque, cigarros, sexo e corridas de cavalo, na vida do bagaceiro Henry Chinaski, em Los Angeles. São os traços ultrabiográficos do escritor, que passou 14 anos batendo o ponto nos Correios dos Estados Unidos da América. Quatorze anos!

Conheço um cara que viveu algo assim, em Porto Alegre, sonhando por longos anos, entre pilhas de cartas, ser um grande artista. Tornou-se o escultor. Os Correios, além dessa incrível coincidência entre Bukowski e este meu amigo, me fazem lembrar de um par de remos que não sei por que diabos comprei em uma viagem pelo rio Arapiuns, no Pará: um remo indígena do alto Tapajós, grande; o outro, caboclo, feito uma gota de madeira. 

Os tais remos foram expedidos no mês de outubro pelo glorioso Correios do Brasil e... jamais chegaram. Temo que nunca se juntem aos outros dois que tenho em casa, com seus barcos imaginários: um remo caiçara do sul de São Paulo e outro do Mar de Dentro – a Lagoa dos Patos.

Henry Chinaski era um porra-louca bêbado e mulherengo moído pelas engrenagens da América, mas não roubava uma carta. Aqui, no quintal do mundo, péssimo aprendiz do capitalismo, uma garrafa de vinho ou um maldito remo chegarem ao seu destino, pagos antecipadamente, virou uma façanha. 

Olho o telefone e penso remar por horas na lama do sistema postal nacional, mas as duas linhas fixas de casa são ficções desde o ano retrasado: uma só dá "oi" na fatura, dispensa relatos; a outra é produto de um provedor local cujo dono, figura fácil nos destaques empreendedores da paróquia, dizem que foi flertar uma casa em Miami.

Ao Brasil de 2018, o prelúdio de Bukowski: "Esta é uma obra de ficção, dedicada a ninguém."

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