André Costantin: cacos de vidro - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião25/01/2018 | 08h00Atualizada em 25/01/2018 | 08h00

André Costantin: cacos de vidro

Proibido filosofar na estrada, no país da regrinha fácil e da impossível direção

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Entre a realidade e a ilusão, que situação. A rima aí é pobre mas poderia estampar o pára-choque da minha alma, levada no caminhão placas BRA 1968 – que os pára-choques nem podem ter mais frases escritas há muitos anos, conforme a lei treze mil e alguma coisa do prestimoso código nacional de trânsito.

Proibido filosofar na estrada, no país da regrinha fácil e da impossível direção; a pátria adolescente plus size que adora diminutivos – ronaldinhos, coxinhas, maracanãzinho, michelzinho. Segundo a lei, caro cidadão, a gramática caminhoneira pode lhe tirar a atenção ao volante; pensar é perigoso. Enquanto isso, saltam outdoors e painéis de led a milhão de lúmens por todos os lados e por cima das cidades, estradas e paisagens, lixões do luxo digital.

Mas a dúvida cruel entre a realidade e a ilusão, que azeda esta crônica, vem deste quadrante histórico impossível de se equilibrar em cima do muro civilizatório da nação, crivado de cacos de vidro: de um lado, a realidade, que te faz um trouxa cumpridor de regras ou um adorável bandido, ambos à beira da falência, com o Estado metendo as unhas no teu fígado – sou eu um criminoso quando tomo a minha tacinha de vinho em casa e pego o meu carrinho para ir para o meu trabalhinho depois do almoço?

Do outro lado do muro está o cão da ilusão, desde sempre a minha fera querida e afável. Mas nem ali estou mais seguro. Durante a juventude e até quase ontem, por querer mudar a realidade, vivi na ilusão de sonhar um Brasil melhor; fui um estudante, um jornalista, um quase-pensador à esquerda, sempre à esquerda de quase tudo. E hoje, nesta noite de janeiro, leio notícias da véspera do julgamento de Lula, símbolo daquela esquerda, de quem já nem me interessa mais saber se poderá ser inocente, presidente ou culpado. Como também nada quero saber dos imberbes magistrados em togas cintilantes que jamais sentiram o cheiro das ruas podres da cidade para poder julgar alguém.

A realidade já pouco importa. Queimo os mitos nacionais. Em cima do muro de cacos de vidro, vou me equilibrando e sangrando os pés em um anarquismo particular e inviável. "Por que você não votou?", pergunta a atendente da justiça eleitoral. Digo que foi motivo de saúde: uma profunda depressão. Yes, temos microcefalia, guerras urbanas e agora a nossa antiga febre amarela. Mas, plim, olha que baita campanha de mobilização nacional fizemos para a tevê digital! Ninguém vai ficar sem o seu kit. Quem paga a conta? Quantos pinos mesmo têm as tomadas de luz lá no Brasil?


 
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