André Costantin: acampamento - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião11/01/2018 | 06h00Atualizada em 11/01/2018 | 06h00

André Costantin: acampamento

Estou quase velho. Mas tenho ainda um canyon dentro peito, com corredeiras e rochedos

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Pegamos a estrada à meia-tarde de quinta-feira. O sol ardendo na grande chaga da atmosfera que o homem abriu ao sul do hemisfério sul. O caminho é de asfalto – a cobra preta, que haveria de devorar tanta gente, nas profecias do monge João Maria, figura de fama que vinha dos sertões de Lages e de muito a oeste até a Vacaria.

A estrada em que agora vamos era, há trinta e poucos anos, um caminho de cascalho e obras eternas até um certo ponto, inexato. Depois virava uma serpente temperamental de pó ou lama além do Lajeado Grande: a Rota do Sol.

Pelo pára-brisa vejo ainda a estrada de barro. Não há esta nave tecnológica que desliza a 100 km por hora, mas vamos na Kombi da marcenaria dos irmãos mais velhos, que tinha naturalmente uma folga no volante que a fazia caminhar de lado nas curvas.

A visagem da Rota do Sol não domesticada encontra logo acima o espelho retrovisor, onde vejo um recorte do real no meu rosto: o tempo passou, entardeço também. Onde estão os velhos amigos Zé Eduardo, Renato, Chico, Hermes, quando íamos aos Aparados da Serra, como se chegássemos a um novo satélite da Terra?

Estou quase velho. Mas tenho ainda um canyon dentro peito, com corredeiras e rochedos. Vamos acampar: levo Clarice, Francisco, Valentina, todos já visitando a adolescência. Saímos do asfalto. Varamos o Passo da Ilha, ponto que retém os campistas que querem a luz elétrica, churrasqueiras e cinco metros quadrados de wi-fi sob um roteador.

Cruzamos a velha porteira com as iniciais GP. Depois, o rio entre Jaquirana e Cambará. Paramos no banhado e acertamos as contas com três traíras que nos enganaram no verão passado. Nos último clarão chegamos à fazenda de mangueirões de pedra e velha casa de pinheiro. Seu Gildo Pereira não apareceu para entregar-lhe aquela garrafa de vinho tinto, dar as notícias do ano e me autorizar a acampar nas suas terras.

Adiante, um vizinho dá a notícia da morte de seu Gildo, coisa de um mês. Morre não um homem, mas uma paisagem daqueles campos entre os Passos da Ilha e do "S". Ficou a porteira com as suas iniciais. Montamos acampamento perto da estrada e do rio. Jantamos as preciosas traíras. Francisco ficou fascinado com a Via Láctea, tão intensa, antes da lua nascer.

Naqueles três dias, as noites foram profundas noites; as águas, muito águas. O tempo desenhou cada segundo. Um amor profundo à Terra foi revelado. Eu estava exausto. Acampamento é rock’n roll. Crianças, se assim posso lhes chamar: mostro-lhes um caminho. A disneylândia que me é possível.

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