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Opinião31/12/2017 | 12h09Atualizada em 31/12/2017 | 12h09

Tríssia Ordovás Sartori: memórias bordadas

Não tenho bola de cristal, mas sei que 2017 foi um ano complexo para vocês, como eles sempre são

Tríssia Ordovás Sartori: memórias bordadas Divulgação/
Foto: Divulgação
Tríssia Ordovás Sartori
Tríssia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

Cá estou fazendo um balanço deste 2017 que finda. Chego a dezembro inteira, felizmente, mas isso não foi uma constante durante os últimos 12 meses. Imagino que também não tenha sido fácil para vocês, mas estamos todos por aqui. Não tenho bola de cristal e sei que foi mais um ano complexo, como eles sempre são.

É bom constatar que conseguimos (ao menos, estamos em processo de) juntar pedaços, ligar pontos, entrelaçar vivências, cortar fios, desfazer nós. Tal qual uma peça bordada. Mesmo quem não tem habilidade para costura e/ou trabalhos manuais, exercitou esse talento ao longo de seus dias – provavelmente, em quase todos eles. 

Vamos acumulando histórias e deixando momentos negativos para trás, vamos nos acostumando a conviver com dores e alegrias, nos sensibilizando com sofrimentos alheios e percebendo que sempre há mais de uma versão para cada história. Colocamos em prática novas ideias, deixamos velhas convicções de lado, exercitamos a alteridade. E aí, meus queridos, isso só se faz com mãos de bordadeira: com precisão, cuidado, atenção, carinho, disciplina, autocontrole e persistência. Desfrutando o percurso, aproveitando cada mudança de cor de linha para ir construindo uma forma de ressignificar a atividade. Como se essa narrativa, que tecemos dia após dia, fosse deixando marcas – não em tecidos. Em nós, nos outros. Vamos aprendendo a conviver com os cortes que fazemos, com o que decidimos deixar para lá, com os medos que precisamos superar, com a tentativa permanente de autoconhecimento e compaixão.

No texto O Narrador, o filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) alerta sobre o quanto as relações humanas estão fragilizadas devido ao não-compartilhamento de experiências. "É como se nos tivessem tirado um poder que parecia inato, a mais segura de todas as coisas seguras, a capacidade de trocarmos pela palavra experiências vividas. Uma das causas desta situação é óbvia: as experiências perderam muito do seu valor", escreve. Hoje, compartilhamos superficialidades mesmo sem querer. 

Ao fazer essa retrospectiva pessoal, percebo que as memórias não residem apenas na mente de quem as viveu – elas estão espalhadas na vida de quem nos rodeia, está por perto, e até de quem nos acompanha apenas no mundo virtual. Portanto, devemos enchê-la de cores, desenrolar novelos, aprender novos pontos e, a cada vez que a linha perpassar um tecido qualquer, realizar esse movimento com amor e generosidade. Nossos bordados nas memórias dos outros transcendem a nossa existência por aqui.

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