Tríssia Ordovás Sartori: Empatia, palavra mágica? - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião01/12/2017 | 15h00Atualizada em 01/12/2017 | 15h34

Tríssia Ordovás Sartori: Empatia, palavra mágica?

Torço para que o vocábulo não se banalize, para evitar que as pessoas sequer possam falar nele

Tríssia Ordovás Sartori: Empatia, palavra mágica? /
Trissia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

Colocar-se no lugar do outro: eis um dos grandes desafios dos nossos tempos. Tudo anda tão polarizado, tão cheio de certos e errados, que apenas uma opinião parece importar – a minha e a dos que pensam do mesmo jeito. Uma olhada na própria timeline do Facebook, diante de um assunto minimamente polêmico, já serve como exemplo. 

Mas aí uma palavrinha mágica, a empatia, entra na moda (são 12,4 milhões de páginas no Google com o termo, seis vezes mais do que "empoderada", por exemplo) para lembrar que é necessário e urgente sair da bolha.

Colocar a palavra em prática aparece como ação essencial ao futuro de cada um de nós. O filósofo australiano Roman Krznaric – que tem O Poder da Empatia como obra mais recente – usa um termo que considero bem interessante, "outrospecção", para se opor à introspecção. Ele não considera um mais importante do que o outro, acha fundamental que possamos olhar para dentro de nós e descobrirmos quem realmente somos, mas também considera imprescindível descobrir quem somos e viver fora de nós, com base na observação e compreensão dos outros. O pensador afirma que o nível da empatia no mundo está em decréscimo, dado ao modo mega individualista como vivemos, embora sejamos naturalmente empáticos, predispostos a se comover e ajudar uns aos outros – 98% têm capacidade à empatia, e a neurociência moderna acredita que ela é um antídoto ao nosso egoísmo e pode nos deixar mais equilibrados. 

Mas, claro, há que repudie a ideia. O psicólogo canadense Paul Bloom, no livro Against Empathy: The Case for Rational Compassion (Contra a empatia: o caso pela compaixão racional), aponta os perigos da empatia, como seu uso pela literatura de autoajuda ou da propaganda política, para usar exemplos sintéticos. Ele defende que sentir ou projetar as emoções dos outros pode provocar desigualdades e imoralidades. Desta forma, assuntos relacionados à moral, à ética e à economia deveriam ter um outro encaminhamento, mais racional. Isso porque a empatia seria instintiva, irracional e tendenciosa.

Torço para que o vocábulo empatia não se banalize, para evitar que as pessoas sequer possam ouvir falar nele (tal qual #beijosdeluz #gratidão #empoderamento) e gosto de pensar que a vida fica melhor quando a gente se dispõe a pensar naquilo pelo que devemos agradecer. E, voltando às polêmicas (de Facebook ou vida real) vale fazer um esforço para compreender como e por que as pessoas pensam dessa ou de outra maneira. Não precisamos concordar com elas, mas o exercício de calçar os sapatos dos outros e perceber o trajeto até o ponto onde elas chegaram até nós é uma possibilidade, no mínimo, instigante.

 

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