Natalia Borges Polesso: vivo numa democracia - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião19/12/2017 | 15h02Atualizada em 19/12/2017 | 15h02

Natalia Borges Polesso: vivo numa democracia

...meritocrata, em que muitos compraram a propaganda de que mérito é algo bom

Natalia Borges Polesso

nbpoless@gmail.com

Vivo numa democracia, que acata a vontade soberana dos que têm poder. Vivo numa democracia, que apedreja a mão auxiliadora. Vivo numa democracia, que dá as costas à pobreza e celebra o falso. Vivo numa democracia privada. Vivo numa democracia seletiva, seletíssima também. Vivo numa democracia, mas tenho que fazer um esforço impressionante para enxergá-la. Vivo numa democracia, jamais vivi uma ditadura, um golpe militar, atos institucionais de quaisquer números. Vivo numa democracia de outra maneira golpeada. Vivo numa democracia pálida, enfraquecida. Vivo numa democracia que me permite escrever este texto sem ter medo. Mesmo assim eu tenho. Vivo numa democracia que não mata, mas tira a vontade de viver. Vivo numa democracia de abundâncias, mas que tira o direito de usufruir. Vivo numa democracia machista, culpabilizante, vexatória, incapaz de se reconhecer como tal. Vivo numa democracia feminista, que todos os dias precisa entrar em guerra contra o patriarcado. Vivo numa democracia patriarcal. Vivo numa democracia branca. Vivo numa democracia racista. Vivo numa democracia que reclama a tradição, a família e a propriedade, sendo que a última, por vezes, com bala. Vivo numa democracia higienista. Vivo numa democracia empreendedora. Vivo numa democracia meritocrata, em que muitos compraram a propaganda de que mérito é algo bom, sem saber que historicamente, o conceito surgiu de uma crítica, uma piada sobre a ideia mentirosa de que o sol nasce para todos. Vivo numa democracia desigual. Vivo numa democracia consumista. Vivo numa democracia cara, exorbitante. Vivo numa democracia que acusa a busca por igualdade de direitos, de busca por privilégios. Vivo numa democracia homofóbica, intolerante. Vivo numa democracia doente. Vivo numa democracia de horizontes borrados. Vivo numa democracia que pretende rezar, e para um só deus branco. Vivo numa democracia de plástico. Vivo numa democracia jovem e senil. Vivo numa democracia manchada. Vivo numa democracia que me deixa respirar, ainda que o ar seja de qualidade duvidosa. Vivo numa democracia delirante, em partes, ficcional, em que os narradores são desconexos, surrealistas chinfrins. Vivo numa democracia conturbada, masturbatória, ejaculante precocemente. Vivo numa democracia libidinosa, perversa. Vivo numa democracia que me permite ter desejos pulsantes e me castra, sabota. Vivo numa democracia voraz. Vivo numa democracia reativa, reacionária, apática, submissa, tudo de uma só vez, conforme o interesse. Vivo numa democracia. Vivo numa democracia. Vivo numa democracia. Vivo numa democracia.

 

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