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Opinião20/12/2017 | 08h00Atualizada em 20/12/2017 | 08h00

Ciro Fabres: o clipe de Anitta

Uma realidade sem filtros. Choque de realidade sempre é bom. A questão é: o que se faz com ela

O clipe de Anitta, lançado nesta segunda-feira, explodiu em polêmica. Vai, malandra foi gravado em uma laje do Morro do Vidigal, no Rio, entre fileiras de bundas empinadas para cima e uma letra que Lulu Santos incluiu na categoria de "escatológica", que gira em torno da batida 'Ê, tá louca, tu brincado com o bumbum' e variações que evoluem para um climão cada vez mais caliente. Uma realidade sem filtros. Choque de realidade sempre é bom. A questão é: o que se faz com ela? 

Anitta disse que é uma homenagem a suas origens, pois vem da favela, do baile e do funk. Lulu desferiu: "A MPB regrediu para a fase anal." Depois, disse que se referia a "letras escatológicas". Levou pau nas redes sociais e um internauta lembrou que o funk de Anitta mostra "a realidade de uma classe excluída". Verdade. Debate pra lá de bom. Logo depois, o mesmo internauta sentenciou: "No passado, os holofotes estavam em cantores de classe média, que cresceram dentro de apartamento e escreviam músicas dentro do condomínio." Perpetrou uma injustiça. O Brasil tem muitas visões, inclusive de cima da laje e de dentro do condomínio. Quem mora em condomínio também sai às ruas e não está proibido de boas experiências e reflexões acerca da realidade. São visões complementares.

Retratar a realidade, ou pincelar - fica melhor - com exatidão, sensibilidade e arte é o que se deseja. Da laje do Vidigal ou do quarto de um apartamento. A questão é o que se faz com isso. Simplesmente se retrata, e ficamos por aí? Ou se estimula uma reflexão útil para melhorar a realidade e nossa trajetória nisso tudo? 

Há quem diga que só mostrar já ajuda a refletir. Não necessariamente, mestre. De qualquer forma, são vertentes abertas pela produção cultural, e isso já é muito bom. Há quem tenha identificado no clipe de Anitta o retrato do verdadeiro Brasil, por assim dizer. Outra questão complexa. O verdadeiro Brasil é múltiplo, complementar, percebido a partir de diferentes geografias, contextos e circunstâncias. Portanto, o clipe de Anitta é uma leitura importante, e talvez seja possível lamentar que o olhar que outrora produzia obras de arte de "dentro do condomínio", e de outros ambientes, do interior, da capital, da zona urbana ou rural, tenha perdido espaço na indústria do entretenimento para provocar reflexões sobre a realidade. Eram úteis, hoje muita coisa restou confinada ou sonegada.

Existe muita produção de qualidade por aí que resta desconhecida e desperdiçada. Enquanto isso, o sertanejo universitário reina quase soberano, avassalador. A oferta restrita de produção cultural diversificada, esse é o estrago. 

 
 
 

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