André Costantin: O último lobo de Belluno - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião01/12/2017 | 10h26Atualizada em 01/12/2017 | 10h26

André Costantin: O último lobo de Belluno

Conheço os meus e outros cães pelas suas vozes e discursos

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

O  olhar de um cão vira-lata, à saída do portão de casa, desatou esta crônica. Eram os olhos amendoados de um cão vermelho, perdido por ali. Minutos antes, o telefone acusava mensagem no WhatsApp: uma moradora se queixava dos uivos noturnos de um cachorro vagabundo e pedia que alguém o despejasse pelo portão do condomínio, no entorno do campanário de Monte Bérico – portal dos raios e temporais da cidade.

Tais eventos da manhã, tão banais, me jogaram ao outro lado do Atlântico, muito ao norte. Volto à pequena sala de acervos de um museu etnográfico da Província de Belluno. Entre objetos e antigas fotografias nas paredes, um pequeno quadro me raptava do mundo imediato: dois homens empertigados, de bigodes camponeses, espingardas ao lado; um deles carregava, atravessado sobre os ombros, pesado e possante, um lobo abatido. Era o último lobo de Belluno.

Os dois caçadores beluneses, que por certo viram tantos outros campônios emigrarem para os confins ao sul da América, quando a fome varou as montanhas e planuras do Vêneto e Lombardia na virada do século 19, eternizavam diante do daguerreótipo aquele momento mágico e trágico: o homem vencia outra vez a natureza bárbara, primitiva. Os caçadores, de sangue ferreiro, fabricantes dos pregos e armas do império romano, ofereciam então seu novo sacrifício civilizatório: o lobo de Belluno.

A fotografia durará mais que o metal de Roma. Um historiador ensinou: as civilizações que não conheceram a fotografia morreram duas vezes. O último lobo de Belluno permanece abatido no papel sensível de nitrato de prata, em contrastes de preto e branco. Correu outra era, o sangrento e tecnológico século 20. Agora há um cão vira-lata, vagando, vigiado digitalmente no WhatsApp e pelas câmeras de alta definição de um condomínio fechado do novo mundo.

Conheço os meus e outros cães pelas suas vozes e discursos. Na noite passada, muito me chamou a atenção um lamento novo, barítono, diferente dos tenores que entoavam a minha velha pastora alemã ou um mastim negro das redondezas. Era o cão vermelho. Aquele uivo, comprido, invocando um lobo ancestral, levando com ele o meu espírito pelos ares e mares não domesticados da mente.

Dentro de algum tempo, o condomínio estará cercado por um muro alto, extenso e contínuo, à prova de cobras, cães vadios e talvez assaltantes. Então, eu, acionista forçado dessa obra insana, vencido e ridicularizado, estarei de saída. A imagem será gravada pelas câmeras do portão frontal: um homem e um cão vermelho.

 

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