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Opinião28/12/2017 | 08h00Atualizada em 28/12/2017 | 08h00

André Costantin: o amarelo na minha vida

O amarelo era uma das míseras três cores vivas que eu, daltônico, via no arco íris

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Escovo os dentes e penso nesta crônica. A escova é de um amarelo gritante. Não sei exatamente em que parte da existência o amarelo entrou na minha vida, feito os temporais aqui de Monte Bérico, portal das águas e dos raios da cidade.

Mas o amarelo... Certo que terá sido no alvorecer de um Eu outonal. Quando li Gaston Bachelard, e li os que o leram antes e profundamente, conheci não o cientista, o físico, solar, racional; mas o Bachelard noturno, da segunda metade da aventura existencial, o filósofo, o iconoclasta, o sonhador da matéria e dos símbolos, o esteta, o menino em devaneio diante das chamas da lareira.

Então, todo o antes que eu fui já não me interessa: azul, verde, encarnado. Às vezes até cinza, branco, um nada bege. O fato é que hoje, antes da escova amarela, a epifania do amarelo em minha vida entrou por uma das vidraças da casa, desde sempre bombardeada por um intenso verde florestal. De repente, num relance do vidro, surge uma partitura amarela, rajada luminosa na monotonia do verde dominante: uma bromélia, resgatada broto do chão fazia tempo e amarrada toscamente com arame numa árvore, agora contestando com sua floração o meu pouco talento de cultivador.

Será que o amarelo veio com aquele sol de pelúcia de Garopaba? – um sol que a pequena Clarice ganhou no jogo de pescaria em um parque de diversões, no fim da praia, aquele sol que foi seu único consolo na terrível noite em que o Papai Noel e o mar vieram lhe tirar o bico para sempre.

O amarelo era uma das míseras três cores vivas que eu, daltônico, via no arco íris. O espectro das sete cores parecia ficção cromática do resto do mundo. Era amarelo o blusão de tricot que eu levei quando fugi de casa até a Avenida Rio Branco, com cinco ou seie anos de idade, sem ir além da casa dos polacos (era um mundo meu subúrbio da infância). Penso ser a dileta cor de Dionísio, aquele blusão de tricot; é o precioso vinho Moscato Giallo de Luiz Massarotto. Amarelo é Aurora. Amarelo, giallo, yellow, amarillo, jaune – tem palavra mais bela?

O amarelo só não cai bem num pinheiro, que é este rei verde-dourado, e nas minhas roupas, que sou o que sou, pálido assim. Moreno, ostentaria amarelo. Amarela era aquela Kombi velha jogada em Quaraí, na fronteira com o Uruguai, que, não fosse a sensatez de um amigo de viagem, eu traria arrastada para o meu pátio. Tenho ânsia de repintar a casa, de um amarelo queimado. Que todos em 2018 descubram o seu amarelo, seja qual for a cor. O amarelo é o abra alas da minha senilidade.

 
 
 

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