André Costantin: natividade - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião21/12/2017 | 15h47Atualizada em 21/12/2017 | 15h47

André Costantin: natividade

Naquela madrugada, Baltazar, Belchior e Gaspar tiveram sonhos inquietantes

De manhã, Belchior mirou o espelho e de repente estava velho: barba e cabelo brancos, quase nada mais daquela juventude que o trouxera de Ur, sua distante terra natal. Sentou-se na poltrona diante da tevê e viu pela enésima vez a propaganda de uma rede de postos de gasolina que tem tudo – basta só perguntar lá onde fica.

Mas enfim Belchior notou que aquele comercial de tevê, de manjado humor publicitário, trazia um enredo corrupto, tão natural aos cérebros consumidores lavados a lava-jato. Na cena de um quiz show televisivo, o apresentador faz a pergunta-chave aos participantes. Um deles ouve a resposta por um ponto eletrônico no ouvido, escondido. A reposta nada mais é que o velho bordão do comercial, assoprada pelo gordinho-propaganda da rede: "pergunta lá no posto...". 

Belchior, que nos anos 80 vira tantas vezes o comercial de cigarros do jogador Gérson, que apenas anunciava, ingênuo, que o importante era levar vantagem em tudo, não entendeu porque naquele tempo enxovalharam tanto o craque canarinho, com a tal lei de Gérson.

Encalacrado no trânsito, Gaspar, que era jovem e robusto, e vinha dirigindo desde Constantinopla, ouvia no rádio os narradores de um comercial de seguro de automóvel. A tal marca garantia, também em enredo teatral, que um sujeito obcecado pelo seu veículo estaria protegido de ladrões, raspões de manobristas desastrados e até das jacas caindo no teto do carro. 

No fim do comercial, em um segundo, outro locutor acelerado tasca uma mensagem quase inaudível, desdizendo tanto milagre anunciado: "antes de contratar consulte as condições com o seu agente de seguro". Ou seja, é tudo mentira! Enganação maior que essa, pensou Gaspar, só o termo "seminovo" que as revendas de automóveis inventaram para vender seus carros usados.

Baltazar era mouro, negro, 40 anos, vestia todo branco, como nos tempos felizes da Arábia. No shopping, caminhava em busca de um presente. Provou incensos em uma loja de quinquilharias orientais, parou na lotérica.  Viu o cartaz da Mega Sena acumulada: 32 milhões, com os quais se poderia, conforme lera no jornal, comprar oito mansões à beira-mar, ou seis iates de luxo, ou uma frota de trocentos carros populares. Meditou um tanto, vagou em ilusões, ao fim de 30 segundos achou tudo aquilo mesmo tão irreal e absurdo.

Naquela madrugada abafada de dezembro, Baltazar, Belchior e Gaspar tiveram sonhos inquietantes. Iam por um campo turvo de automóveis, anúncios, leds, modelos, holografias e outdoors. Seguiam uma estrela no céu.

 

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