André Costantin: Jesus - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião07/12/2017 | 14h40Atualizada em 07/12/2017 | 14h42

André Costantin: Jesus

No horizonte da memória, agora, não há mais o deserto pampeano, o asfalto

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Ele está em todo lugar. Entro no pampa, rumo à fronteira. Na frente vai uma jamanta em cujas portas traseiras da carreta vê-se a estampa de Jesus agonizante, como um outdoor ambulante. A luz da estrada projeta a ilusão do juízo final naquela ultrapassagem.

Mergulho na reta. Lembro o letreiro no vidro de um carro, dias antes, que anunciava: "Povo escolhido por Jesus". Outro, na cidade, levava um adesivo com o rosto de um Jesus bombado, no centro de uma logomarca: Jesus Jiu-Jitsu.

No fim da longa viagem está Uruguaiana, às margens do Rio Uruguai. Em uma vila da cidade, encontramos a casa de Vadico, um dos pioneiros da Rouxinóis, a escola de samba mais antiga daquela fronteira musical do Brasil. Câmeras ligadas, começamos a ouvir as memórias do samba, enquanto se percebia a cada pouco um olhar vigilante, atravessado na porta da cozinha.

Certa hora, quando João Da Nova, ritmista local que nos acompanhava na conversa, pegou no cavaquinho, a mulher do Vadico saltou como uma onça na roda. O cavaco parou no terceiro acorde. Em nome de Jesus, ela nos proibia de tocar ali na varanda tal música mundana, pois que ela e o marido haviam sido batizados na palavra do Senhor.

Assim, naquela casa de bamba, Jesus vai matando o samba – reza maior daquelandre cas margens líquidas do Brasil. O Jesus brasileiro vara os corações e os confins desta nação abençoada por deus, fazendo da bênção uma maldição.

No horizonte da memória, agora, não há mais o deserto pampeano, o asfalto. E sim o rio Tapajós, mar doce do Pará. Lico, o imediato do pequeno barco onde viajo, é um caboclo cheio de molejo amazônico. Filho do carimbó, o ritmo mestiço, índio, negro, algo caribenho, que deixa os rios e os cabelos daquela parte da Amazônia ainda mais encaracolados. "Lico, solta um carimbó na caixa". Ele ri de canto; não dá. Só música de louvação. A Jesus.

Atracamos em Alter do Chão, antes da volta a Santarém. À noite, na praça de Alter, infestada de viajantes e hipongas anacrônicos, surge um vozerio intenso. Deixo a mesa do bar e sigo aquele caos verbal. Entro no templo. O pastor invoca os exércitos de Jesus. Dois grandes grupos de fiéis – jovens e adultos, perfilados, em lados opostos – usam uniformes militares, com fardas e boinas camufladas, naquele calor do inferno. A Guerra do Senhor.

O êxtase de Jesus, invocado a cada três segundos, só não é mais onipresente que o velho clichê do restaurante de algum italiano exilado em um pequeno paraíso turístico do novo mundo – onde consulto o cardápio. Jesus é massa.

 

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