Pedro Guerra: A melhor versão de mim - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião10/11/2017 | 13h48Atualizada em 10/11/2017 | 13h48

Pedro Guerra: A melhor versão de mim

Erramos. Todos. O tempo todo. É aí que mora a graça da coisa. Salvador Dalí, o pintor, disse que não precisamos nos preocupar com a perfeição. Afinal, nunca vamos atingi-la. 

Pedro Guerra: A melhor versão de mim reprodução/reprodução
Foto: reprodução / reprodução

Estava distraído nas redes sociais quando encontrei uma foto do meu livro. Instantaneamente dei like, e só depois fui ler a resenha que acompanhava a postagem. Aos poucos, o sorriso no rosto foi dando espaço para os traços de preocupação. Pude sentir o suor se formando nas beiradas da minha testa. Meus dentes mordiscavam o lábio inferior como se algo muito ruim estivesse prestes a acontecer. Aquela foi a primeira vez que vi alguns comentários negativos sobre o meu novo livro, e obviamente a minha primeira reação foi discordar.

Passei a falar com o celular, como se a pessoa que tinha feito a crítica pudesse me ouvir. Eu parecia um louco. Quis dizer que ela estava errada, óbvio. Quis explicar que os pontos específicos que ela não gostou tinham um porquê. É claro que nossos erros sempre têm um motivo, uma brecha para serem justificados. Alô, humildade.

Foi como uma espécie de trailer do fim do mundo. Uma experiência de quase morte. Crise existencial incontrolável e incompreendida.

Enquanto procurava os classificados do jornal para avaliar as possibilidades de um novo emprego, eu me questionava se realmente me encaixava na categoria de péssimo escritor. Eis que decidi ler a resenha mais uma vez, com um pouco mais de calma e atribuindo um novo olhar. E quer saber? A crítica nem era tão ruim assim.

Acontece que nós estamos programados para acreditar que os outros encaram as coisas da mesma maneira que nós. Então acaba sendo natural esperarmos uma reação condizente às nossas expectativas. Mas não deveria. "O que eu fiz é lindo; Aquilo que eu criei é maravilhoso; É claro que todos vão gostar e achar uma obra prima!;" Só que não.

A humildade se expressa quando a gente entende que nunca vai ser perfeito. Hoje eu sou a melhor versão de mim, o máximo que posso extrair. Mas com certeza essa é uma versão pior daquela que serei amanhã. E assim por diante.

Erramos. Todos. O tempo todo. É aí que mora a graça da coisa. Salvador Dalí, o pintor, disse que não precisamos nos preocupar com a perfeição. Afinal, nunca vamos atingi-la. E quem é que saberia para onde ir, ou até mesmo o que fazer, se um dia chegasse a encontrá-la?

Enquanto os meus batimentos cardíacos retornavam ao normal e minhas mãos já tremiam muito menos, lembrei das outras tantas críticas positivas que já recebi. Por que é que a gente está sempre descartando o lado bom das coisas (mesmo que esta seja a maior parte) e nos focamos só naquilo que não é tão bom? Aquilo que não nos agrada acaba sempre tendo um peso maior, queiramos ou não.

Acho que somos todos um pouco masoquistas. E lá no fundo, mesmo sem conhecê-la, ainda insistimos em procurar a perfeição das coisas.

Spoiler: estamos todos errados.

O colunista escreve quinzenalmente.

 

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