Nivaldo Pereira: Travessias do viver - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião17/11/2017 | 16h03Atualizada em 17/11/2017 | 16h03

Nivaldo Pereira: Travessias do viver

Porque só se conhece a verdadeira força quando um mundo acaba e outro precisa ser começado

Nivaldo Pereira: Travessias do viver Charles Segat/Ilustração
Foto: Charles Segat / Ilustração

"Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver. Forte eu sou, mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar". Travessia, a canção que lançou Milton Nascimento ao merecido sucesso, está fazendo 50 anos. É uma das composições mais escorpiônicas de nosso cancioneiro, parceria do escorpiano Milton, nascido a 26 de outubro de 1942, com o amigo Fernando Brant, que tinha quatro planetas em Escorpião. O próprio título já sintetiza a temática do processo de regeneração após uma perda: a travessia da treva para a luz, da morte aparente para uma nova vida. Porque só se conhece a verdadeira força quando um mundo acaba e outro precisa ser começado. Viver é um contínuo renascer.

Consta que Travessia foi inscrita secretamente pelo cantor Agostinho dos Santos no Festival Internacional da Canção de 1967, sem que Milton e Brant soubessem. Deu no que deu: ficou em segundo lugar na final e rendeu ainda a Milton o prêmio de melhor intérprete. Tornou-se um hino imediato. Para além de seu teor emocional, a canção também soava como uma promessa de luz no sombrio contexto político de ditadura da época. Havia uma dura travessia em curso no Brasil.

"Meu caminho é de pedra, como posso sonhar?" Esse verso evoca a famosa pedra no caminho do poema do também mineiro e também escorpiano Carlos Drummond de Andrade. É diante da inevitável pedra da realidade que sonhos românticos se vão, trazendo a dor da desilusão, mas também uma visão nova, mais realista. "Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver". A conclusão da canção antecipa a verve de outro cantor escorpiano, o Belchior, para quem a alucinação era "viver o dia a dia", com a convicção de que “viver é melhor que sonhar”.

Sem a crueza que Belchior nunca abandonou, Milton preferiu focar mais sua arte escorpiônica na direção solar já indicada no final de Travessia. Ele cantou sempre os valores que devem permanecer: fé, amor, amizade, respeito. Segue nos avisando "que é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre". Bendito escorpiano luminoso!


 

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