Natalia Borges Polesso: Vigiar e punir - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião14/11/2017 | 11h29Atualizada em 14/11/2017 | 11h29

Natalia Borges Polesso: Vigiar e punir

Deveríamos poder ocupar qualquer espaço para dizer qualquer coisa. Mas não.

Natalia Borges Polesso

nbpoless@gmail.com

Estamos sendo observadas, não só. Estamos sob o olhar de um vigia que nos pretende obedientes, servis, incapazes de desejar por medo e que, ao nos querer assim, revela seu ódio por nós. Sob a vigília constante começamos a nos comportar como o olho-vigilante deseja. Por medo, repito. É este o efeito do panóptico. Mas não pode ser assim. Então, ao desobedecermos, seremos punidas.

O texto da PEC, que inicialmente previa uma licença maternidade mais ampla, agora criminaliza o aborto até em casos de estupro. O texto, aprovado numa comissão composta majoritariamente por homens, foi chamado de Cavalo de Tróia. Entende-se bem a razão. Algo que deveria nos beneficiar acaba nos afastando do direito ao nosso próprio corpo. Nossos corpos não nos pertencem perante a lei dos homens.

Mas a questão se agrava.

Segundo dados do Ipea, estima-se que o contexto do estupro no Brasil seja o seguinte: 527mil casos por ano, do quais apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia. 70% das vitimas são meninas e adolescentes, sendo que 24% dos agressores são os próprios pais ou padrastos, e 32% são amigos ou conhecidos da vítima. Será que a comissão se dá conta desses dados na hora que aprova o texto de um projeto desses? Será que sabe disso? E se sabe, será que compreende a crueldade, a sordidez dessa assinatura? Porque resumindo, o que a PEC altera é: se uma mulher ou menina for estuprada (talvez pelo pai), é obrigada a ter a criança; se o feto não tiver condições de sobrevivência, é obrigada a mantê-lo mesmo assim e se correr risco de morte por causa da gravidez, escolhe-se que morra.

Estamos sendo observados. No fim de semana que passou, tivemos um debate sobre literatura LGBT na Feira do Livro de Porto Alegre. O local do debate, originalmente escolhido pela organização da feira, o Santander Cultural, ao receber ameaças cancelou sua participação, e a feira nos relocou para o Centro Cultural CEEE Érico Veríssimo, que, por sua vez, ao entender que o prédio público poderia sofrer danos, em caso de alguma manifestação, vetou o debate em suas dependências. A feira, mais uma vez nos remanejou, e acabamos ocupando o Teatro Carlos Urbim, na praça. A brigada promoveu a segurança e o evento transcorreu sem problemas. Fomos jogados de um lado para o outro por querer falar sobre literatura. Não pode ser assim.

Deveríamos poder ocupar qualquer espaço para dizer qualquer coisa. Deveríamos ter autonomia sobre nossos corpos. Mas não, estamos sendo vigiados e punidos. Para uns a supressão do direito sobre o corpo, para outros a supressão do direito ao espaço. Enquanto isso, acaba de entrar em vigor a reforma trabalhista que sintetiza e concretiza a ideia de que devemos obedecer e de que nada nos pertence de fato, nem nosso pensar, nem nosso fazer.

Que semana!

 

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