Natalia Borges Polesso: Diálogos  - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião07/11/2017 | 11h14Atualizada em 07/11/2017 | 11h14

Natalia Borges Polesso: Diálogos 

Não falávamos por conformidade nem resignação, senti que compartilhávamos um cansaço e uma vontade

Natalia Borges Polesso

nbpoless@gmail.com

Escrevo agora do aeroporto de Santiago, no Chile. Escrevo no bloco de notas do celular, porque não quis levar computador, a intenção era ficar próxima de quem estava aqui. Escrevo para contar que estive em um evento, organizado pela Feira Internacional do Livro de Santiago, o evento se chama Diálogos Latino-americanos. Escrevo para contar que todas as mesas eram compostas por mulheres. Todas. Convidadas e mediadoras. Escrevo para dizer que não se falou sobre escrita feminina, nem sobre vozes femininas, nem mesmo sobre autoria de mulheres, mas sobre como é escrever hoje na América Latina, sobre expressarmos nossas vontades e sobre quem somos hoje geograficamente, em toda nossa complexidade. Houve perguntas sobre a tal literatura feminina, mas a resposta veio desconstruída, por parte de todas. Interessava dialogar sobre outros campos. Escrevo para contar que enquanto me faziam perguntas sobre literatura,  também me perguntavam sobre quem somos geograficamente. E quando nas minhas respostas despontava certo medo, uma angústia geográfica, percebi, com mais precisão, como estar vivendo o Brasil de hoje me afeta.

Me peguei repetindo uma expressão, como se fosse uma construção de estilo, sabem? Não como quando se repete para criar um efeito, mas quando se repete porque é algo mais interior, algo que vem do lugar selvagem de onde brotam um pouco nossas narrativas, e assim o efeito acontece espontaneamente. Me ouvi repetir: o Brasil está se tornando um lugar obscuro. Então me perguntavam: em que sentido? Exemplifiquei com algumas decisões políticas, com o congelamento dos fundos de educação, com alguns de nossos candidatos caricatos, com políticos caricatos, e a réplica era "no nosso país também acontece". Não falávamos por conformidade nem resignação, senti que compartilhávamos um cansaço e uma vontade. Compartilhávamos também um grande evento que tinha nos pago a todas para estar lá.

Depois lembrei de mais um exemplo: as intervenções religiosas no Estado. Bem, aí não puderam acreditar. E vi suas caras de fastio e compreensão se transformando em caras de preocupação. E repeti. O Brasil está se tornando um lugar obscuro. Nesta hora, compreenderam melhor meu medo. Uma delas me perguntou: e não tem ganas de ir embora? Fiquei com um sim entalado na garganta, mas não consegui dizer nada. Aqui o diálogo é outro.

 

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