Natalia Borges Polesso: A conta está errada - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião28/11/2017 | 08h00Atualizada em 28/11/2017 | 08h00

Natalia Borges Polesso: A conta está errada

Somos a cidade sem incentivo ao Carnaval de rua, sem Festa da Uva, sem rodeio

Natalia Borges Polesso

nbpoless@gmail.com

Foram mais de 180 projetos inscritos no edital do Financiarte de 2017. A Casf recomendou 69, mas apenas 18 foram contemplados. A lei nº 6.967, de 30 julho de 2009, diz que o valor destinado ao incentivo cultural não poderá ser inferior a 1% nem superior a 2% da receita proveniente do ISSQN e do IPTU. De acordo com dados oficiais da prefeitura, compartilhados e questionados pelo Conselho Municipal de Cultura da cidade, o investimento mínimo previsto por lei deveria ser de R$ 1.800.000,00, porém o total para o Financiarte 2017 foi de R$ 600.000,00. Claro que a conta está errada.

Mas não é só a matemática; é o constrangimento. Da falta de respeito que precisamos engolir; da falta de visão que vamos precisar remediar sabe-se lá como; da falta de noção humana geral. Diálogo pressupõe que ao menos duas partes se ouçam e que pretendam compreensão recíproca.

Mas não é só o constrangimento; é o descumprimento da lei. Como cidadãos não podemos nos calar frente a uma gestão que atropela as leis. Isso não está acontecendo apenas na área da cultura, isso não está acontecendo só em Caxias. A cidade vai mal, o Estado vai mal, o país vai mal.

Mas não é só o descumprimento da lei; é o projeto. O projeto estúpido e sórdido que não prevê o humano, mas a máquina, a maquinaria; que prevê e propagandeia mais emprego, mais segurança e mais saúde, mas falha em averiguar a causa da violência, a causa das doenças, e emprega cidadãos já doentes, sem desejos, com sonhos mínimos, porque assim é mais fácil enganar, controlar, matar.

Cidade sem cultura, sem opções de lazer, é cidade violenta e doente.

Somos a cidade da fé que cega, do trabalho que tolhe. Somos a cidade sem incentivo ao Carnaval de rua, sem Festa da Uva, sem rodeio, agora sem projetos que descentralizam a cultura, seremos talvez a cidade sem leitura, sem música nas escolas, sem arte, sem museus, sem compreensão dos festivais de rua, sem Parada Livre. Somos a cidade que acha que artista é doido, e assim sendo, ataca-prende-seda-amarra-por-oito-horas. Somos a cidade que censura, que desloca, que proíbe. Somos a cidade do "vai trabalhar, artista!" que não dá condições para o trabalho do artista, cidade que vem cavando um buraco onde todos nós vamos cair e onde vamos nos pisotear para poder sair. E tem gente rindo! E tem gente se achando muito esperta, ecoando o grito mais tacanho do momento: "vai trabalhar, artista!" Infelizmente, estaremos todos juntos no buraco, uns construindo escadas, outros cavando ainda mais fundo.

Conheçam a história do Financiarte (que já teve outros nomes) e a história dos seus projetos e artistas. É o mínimo.

 

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