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Opinião13/11/2017 | 09h00Atualizada em 13/11/2017 | 09h00

Marcos Kirst: pedras fora, rota livre

A moeda é sempre a mesma. O lado ofertado à luz do sol depende só de nossa vontade

Quando estamos determinados a fazer alguma coisa, não há desculpa capaz de nos demover de nosso foco. Porém, virando a outra face da moeda, surge estampada ali a antítese direta do axioma, em mesmo peso: se não queremos fazer algo, qualquer coisa serve de desculpa para nossa inércia. Quando não queremos fazer algo que deveríamos fazer, usamos como subterfúgio a ação impeditiva supostamente advinda de todos os elementos externos a nós mesmos, que se colocam como pedras atravancando nosso caminho. Porém, quando estamos determinados a cumprir uma tarefa, não há galho no meio do trajeto que não seja transposto, cerca que não seja pulada, pedra que não seja rolada para o lado, vento que não seja encarado de frente, temporal que não seja exorcizado no grito. A moeda é sempre a mesma. O lado que decidimos oferecer à luz do sol depende de nossa vontade, e só dela.

Penso nessas coisas quando me ponho a refletir sobre a impressionante história de vida de um personagem folclórico que movimentou as paragens do distrito de Criúva por volta de muitos-anos-no-antigamente-afora, isto é, ao redor de 1844. Conhecido como "O Santo da Cruz", há até uma ermida erguida em honra a ele ao lado da Igreja Matriz, onde está abrigada a cruz que dizem o monge ter deixado para a comunidade ao partir depois de uma temporada pelas redondezas operando milagres, fazendo curas, distribuindo benzeduras, bênçãos, conselhos, auxílio espiritual e semeando mistérios. Mas tinha nome e biografia o monge eremita. Chamava-se Giovanni Maria D`Agostini. Nasceu em 1801 na região italiana do Piemonte; ingressou jovem em um seminário em Roma mas saiu antes de sagrar-se padre. Desejava percorrer o mundo divulgando a fé, na forma como a entendia, e foi o que fez.

Os registros históricos que seguem suas pegadas dão conta de que, primeiro, percorreu França e Espanha, chegando a fazer o Caminho de Santiago de Compostela. Depois, migrou para as Américas e percorreu (acompanhe): Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Brasil (São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, onde deixou marcas em Criúva, Candelária e Santa Maria), Chile, Bolívia, Peru, México e Canadá. Cansou? Ele não. Tem mais. Percorreu boa parte dos Estados Unidos até se aquerenciar em uma cidade no Novo México, onde acabou misteriosamente assassinado em 1869. Pois é. Fez tudo isso a pé, de carroça, barco ou no lombo de animais. Não esperou a chegada dos automóveis e dos aviões para cumprir a tarefa. Sua inexistência não era desculpa. E a gente aqui, reclamando do elevador que enguiça...

 

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