Gilmar Marcílio: Muito limpinhos - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião24/11/2017 | 09h51Atualizada em 24/11/2017 | 09h51

Gilmar Marcílio: Muito limpinhos

Essa gurizada tão asseada está sendo privada de boas e educativas experiências

Poucas coisas na vida são mais interessantes do que observar. Faço isso com grande prazer. Sempre que possível com isenção de julgamento, que é a parte mais difícil. Quando não, procuro um olhar de complacência, tentando dizer a mim mesmo que desconheço as razões que motivaram tal comportamento. Seguindo esse raciocínio, comecei a analisar como a maioria dos pais com crianças pequenas os protegem em demasia. Menos o que envolve celulares e computadores, parece que neste campo pode tudo. Afinal, uma babá custa mais caro e o tempo dos adultos é precioso. Fato é que, em contrapartida a isso, vejo meninos e meninas muito limpinhos, engomadinhos. Parecem saídos de uma vitrine. A gente olha para eles e detecta certo medo. Não podem se sujar, pois as reprimendas virão. Então, ficam meio engessados, deixando que apenas seus dedos voem sobre os teclados que os distraem do mundo que mais importa: o das sensações. Acho isso bem perigoso, pois crescerão com menos defesas. Não só em termos físicos, mas também psicológicos. Afinal, é preciso expor-se, imiscuir-se, entregar-se. Assepsia em excesso lembra hospital. Parece ser deveras saudável refestelar-se na terra, rolar na grama, levar alguns tombos.

Neste sentido, eu e minha irmã podemos nos considerar privilegiados. Fomos criados na colônia, num tempo completamente analógico. Muitas vezes chegávamos em casa encharcados de chuva, voltando da escola. Não havia desespero nos olhos da nossa mãe. Um banho quente e um bom agasalho resolviam tudo. Não ficávamos guardados em estufa. O contato direto com vacas, galinhas e cachorros fazia com que nos sujássemos, a pele com cheiro de bicho. Bem felizes. E assim fomos crescendo saudáveis; raras são as minhas lembranças de perder um dia de aula por estar doente. Nada era lavado em excesso. Nada passava por uma severa inspeção. Tudo nos parecia natural. Então, olhando para essa gurizada tão asseada, penso que os estamos privando de boas e educativas experiências. Prefiro estar ao lado de alguém que se aventura, que mergulha as mãos em sólidos e líquidos, sem fazer cara de nojo. Porque somos, também, vísceras e sangue, excrescências. E não só poesia, transcendência e alma. Um ser completo voa, mas também se permite afundar na materialidade de substâncias menos nobres.

Estou apenas especulando. Mas acredito numa cartilha educativa que nada exclua, para que os filhos tenham familiaridade com todos os aspectos que irão se confrontar quando adultos. Pode-se até correr mais riscos. Porém, compensa. Eles estão descobrindo o prazer que o corpo nos dá. Para tanto, precisam ficar longe das louváveis intenções maternas e paternas que os guardam em cofre fechado, imaginando que os salvam. Enganam-se: torna-os indefesos, roubando-lhes o prazer de conhecer o claro e o escuro, o alto e o baixo, o áspero e o sublime. A vida, enfim.

 

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