Ciro Fabres: O vídeo de William Waack - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião15/11/2017 | 14h56Atualizada em 15/11/2017 | 14h56

Ciro Fabres: O vídeo de William Waack

Nem sempre a humanidade do erro pode encobrir a característica do ato

Esse episódio do vídeo de William Waack, o jornalista da Globo, que vazou para o mundo permite retomar uma polêmica sempre interessante: o erro, e o que fazer com ele. Waack deixou transbordar uma manifestação de discriminação racial explícita, e discriminação impregnada. Isso não tem salvação.

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo, foi um dos que se apressou e dar um veredicto: "Todos nós podemos errar", vaticinou. Claro que sim, está coberto de razão, mas nem sempre essa humanidade pode encobrir a característica do ato, previsto como crime, e sua consequência. Sempre considerei o erro, que está intimamente ligado à fragilidade e à imperfeição, um dos dois temas mais fascinantes do ser humano. O outro é a intenção. Esses dois temas podem andar um tanto associados quando uma intenção não prospera, mas isso é assunto para outras reflexões. Por ora, fiquemos com o erro.

Antes de qualquer coisa, porém, será forçoso concordar que a manifestação de Waack é indefensável. Ponto. Posto isso, pode-se especular sobre outras possibilidades que a polêmica suscita. Como essa introduzida pelo ministro Gilmar. Claro que cada um pode errar, todos nós já erramos. O que fazer com o erro e suas consequências é que sempre será fascinante. Há os que condenam sumária, soberana e definitivamente. O tribunal das redes sociais parece que surgiu para isso, lamentavelmente. Ocorre que nem todo entendimento de que a manifestação de Waack não tem defesa é fruto de uma condenação sumária. Muito pelo contrário. E quando for, não é recomendável que seja.

A manifestação de Waack já produziu consequências, e elas não têm nada de perseguição. É da natureza do ato praticado e da função pública de quem proferiu a discriminação. A própria Globo afastou Waack, porque uma imagem gruda na outra. E ele próprio já concluiu que não poderá mais palestrar país afora. Inevitável.

Gilmar deixa implícito que Waack deve ser perdoado. Outros agiram da mesma forma, invocando a trajetória do jornalista. Invocar só agrava a situação. Surgiu um artigo que reflete se um vídeo curto pode ser suficiente para destruir uma carreira. Não é um único “vídeo curto” o problema, vamos combinar. Essas são ponderações que tentam evitar o inevitável: reconhecer que a manifestação é indefensável.

Depois desse reconhecimento, perdoar é com cada um. Estar aberto a reconsiderações sempre será atitude recomendável, prudente e sensata. É característica essencial da cultura de paz. Porém, terá de vir acompanhada de uma mudança de postura de quem proferiu tamanha discriminação. Um giro honesto de 180 graus. Sem isso, não terá servido para nada estar aberto a reconhecer a humanidade de um erro.


 

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