Ciro Fabres: o sino da Catedral - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião29/11/2017 | 10h24Atualizada em 29/11/2017 | 10h24

Ciro Fabres: o sino da Catedral

Na cidade tranquila, é companheiro dos dias. Na cidade agitada, um estrangeiro

Os sinos ainda tocam. Sinos são instrumentos do século passado, de séculos anteriores, mas equipamentos eminentemente comunitários. Chamam a comunidade. Avisam, alertam uma comunidade. Na cidade pequena, o badalar do sino ainda embala o cotidiano, faz parte do cenário. Na cidade agitada, já quase não consegue, em completo descompasso. Mas está lá, o sino, um resistente legítimo, a cumprir seu papel. 

Na quarta-feira agora, uma semana atrás, surpreendi-me ao meio-dia, a esperar a sinaleira abrir na esquina da Visconde com a Sinimbu. A cidade rugia enfurecida. E o sino da Catedral, a pouco mais de uma quadra dali, tocava deslocado. Toca todo o dia, no mesmo horário, religiosamente. Somos uma comunidade, afinal. Mas quase não conseguia ser ouvido. Na quarta-feira, ao meio-dia, a cidade rugia. Na descida da Visconde, represados pelo vermelho da sinaleira, motoristas em três fileiras de carros, em cinco linhas, um atrás do outro, como na Fórmula 1, aguardavam entrincheirados. Entre eles eu. Pela Sinimbu, os ônibus cruzavam a produzir o ronco tradicional, reforçado pelo ronco dos carros. E abafavam o sino. 

Buzinas, burburinho, o rádio, as notícias, as conversas agitadas, a distração, a pressa, os atrasos, o smartphone, o sinal do WhatsApp, a obstinação por correr atrás de um resultado, tudo conspira contra o sino da Catedral. Do outro lado da Visconde, entre o Círculo e os Correios, pedestres aproveitavam que nenhum carro dobrava da Sinimbu para fazer a travessia da rua, a passos largos, quase a correr. Não dá para vacilar. Idosos não têm chance. E o sino a tocar. Parece querer lembrar de algo a uma comunidade que se esfarela vertiginosa, que não quer obstáculos a sua frente, que não quer ser comunidade. Do que quer lembrar o sino? De alguma coisa ele quer lembrar. E não é simplesmente o fato de que o relógio marca meio-dia. 

No horizonte, quem desce da Visconde, a barra negra do temporal tornava o ambiente ainda mais urgente. Os faróis piscam, a pressa aumenta. Começou a chover. Foi o dia do temporal, da chuva de pedra para os lados de Flores da Cunha.

Na cidade tranquila, o sino é companheiro dos dias. Na cidade agitada, um estrangeiro.

Na cidade em que quatro moradores morreram em confronto com a Brigada no Primeiro  de Maio, em que uma van escolar foi atacada, com quatro pequenos alunos ameaçados, na cidade em que um ônibus foi incendiado na Avenida Brasil, tudo em 48 horas, em que tantas barbaridades têm acontecido, o sino ainda toca. 

De alguma coisa o sino quer lembrar. Do que quer nos lembrar o sino?

 

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