Ciro Fabres: A performance - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião01/11/2017 | 09h54Atualizada em 01/11/2017 | 09h54

Ciro Fabres: A performance

Comunicação não é aquilo que se diz, mas o que as pessoas entendem

A arte se presta à livre contemplação, leitura, interpretação. É sua inesgotável riqueza, espaço sagrado a ser preservado. O bailarino que fazia sua performance na Praça João Pessoa como parte da programação do Caxias em Movimento e teve a apresentação confundida com um "surto psicótico" diz que tentava provocar a reflexão sobre o "extermínio de pobres e negros". Acabou protagonizando, com o auxílio luxuoso de outros atores, uma bela peça sobre a incomunicação de nossos dias. A arte se presta a essa infinita abertura de possibilidades.

A falta de comunicação, neste caso, se dá em diversas direções, em uma tradução exemplar da realidade. Há uma desinteligência completa e não surpreende que, ao final, ninguém se entendeu. Alguma semelhança com nossos debates em redes sociais? Não é o caso de esmiuçar o episódio em si e fazer julgamentos. Muito poucos presenciaram a cena na sua integridade, surgiram alguns depoimentos e versões. Há um vídeo que não permite captar tudo o que foi dito ali. Até onde se pode assistir, não houve informação, ou comunicação, sobre a realização da performance. Não se tem a cena inteira, disponível. Os guardas estavam na prerrogativa de ofício de tentar prevenir um eventual "suicídio". Como condenar? Agiram menos por truculência, mais por prevenção e desconhecimento. Chamaram o Samu, que não deteve a incomunicação, pelo contrário. A comunicação estava amordaçada. Esteve, o tempo todo.

A Guarda não sabia o que a Secretaria da Cultura havia programado. Incomunicação. Até onde o vídeo permite revelar, não houve a comunicação do que se tratava. Pode-se cogitar de que a performance estava sendo levada até o fim pelo bailarino para medir o desfecho, incluindo a incompreensão, o cerceamento, a interferência. Neste caso, eram desdobramentos possíveis. A incomunicação prosseguiu a ponto de o protagonista ter ficado oito horas em uma maca até ser atestado que estava lúcido e consciente. Perplexidade total, do início ao fim.

Comunicação não é aquilo que se diz, mas o que as pessoas entendem. Essa é uma definição familiar ao ambiente da publicidade, e bastante interessante, à medida em que restringe o protagonismo de quem comunica e, no mais das vezes, se acha dono de uma verdade. Pouco se ouve, muito se fala, há muita convicção e apego às verdades de cada um, pouco se observa e se conversa, conclui-se apressadamente, a agressividade está popularizada nas redes sociais. Já é quase regra geral. O debate de ideias está interditado, ou, no mínimo, inviabilizado.

"Fim" era o nome da performance. Certamente a incomunicação ou, no mínimo, a péssima comunicação que nos caracteriza apresse o caminho até o fim das possibilidades. Houve algum sentido, afinal. 

 

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