Ciro Fabres: A experiência humana - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião08/11/2017 | 10h48Atualizada em 08/11/2017 | 10h48

Ciro Fabres: A experiência humana

Pode ser fascinante ou terrível. Pode engendrar momentos sublimes ou os mais tenebrosos

Um conhecido me falava semana passada de um velório a que se preparava para ir, e era o velório de uma criança nascida dois dias antes, de forma prematura, que não conseguira sobreviver. Mas vivera dois dias. Aquele relato me foi sobremaneira tocante, de tal forma que me recolhi introspectivo, em reflexão. Surpreendi-me a pensar que aquele pequeno ser havia cruzado pela existência como que em um piscar de olhos. Talvez sequer os tenha aberto, sem tempo para recolher impressões sobre o mundo exterior. Talvez tenha recebido um nome, que quase não se ouviu. Mas certamente lutou para viver, e essa condição, concluí ensimesmado, tornava o desfecho triste e tocante. Não teve tempo para reter praticamente nada, ou reteve muito pouco da realidade, da experiência humana.

Ah, a experiência humana. Pode ser fascinante ou terrível. Pode engendrar momentos sublimes da existência ou, pelo contrário, os mais tenebrosos. Essa alternância entre extremos, no entanto, não deve invalidar ou fazer desacreditar a experiência humana. Apesar de tudo, ela precisa se viabilizar e homenagear a vida. Mas que a experiência humana pode nos colocar desolados, descrentes, em prostração, ah, isso pode. Dois dias depois do passamento do bebê prematuro, eis que outra criança, de nome Isabella, travaria sua luta pela sobrevivência em condições terríveis e para ela incompreensíveis. Tinha oito meses, só um tempo a mais para reter a realidade e emprestar à vida um pouco de seu encanto infantil. Ainda conseguiu, ainda houve tempo para essa troca, para a lembrança, para a foto que ficou, mas o que ela teve de reter foi a condição humana mais perversa, que a levaria à morte precoce, traduzida no gesto do ex-companheiro de sua madrinha, que cuidava dela naquele momento, de jogar álcool e atear fogo nas duas. Uma barbárie cruel.

A experiência humana pode ser hesitante, cheia de inseguranças, maldades, incertezas, pode ter instantes de beleza ou consumar-se em tragédia. Ocorre em meio a idas e vindas e vacilações. O roteiro que culminou no triste desfecho da morte de Isabella teve necessariamente um encontro inicial entre um homem e uma mulher, olhares que se cruzaram, expectativas criadas, tentativas que viraram fumaça, até reunir em uma mesma cena o agressor, a ex-companheira e a menina Isabella. São roteiros incontroláveis da vida, da experiência humana. O incompreensível é que ninguém merece tal desfecho, ainda mais uma doce criança de apenas oito meses.

Esta é uma crônica triste e quase desorientada. Apesar de tudo, a experiência humana precisa valer a pena. É nossa tarefa e missão. Não cabe desistir. É o que resta, em homenagem a Isabella.


 

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