André Costantin: Muinho - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião16/11/2017 | 14h32Atualizada em 16/11/2017 | 14h32

André Costantin: Muinho

Onde havia estruturas decaídas e portas podres, brotaram mosaicos de vidro, cimento e ferro

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Tinha planejado aqui outras narrativas a bordo do barco amazônico Gaia, em sua viagem pelo rio Arapiuns. Mas a crônica é este gênero suscetível aos ares. Girou o catavento – e vou pensando nesta semana sobre um lugar; um moinho.

O Muinho, um prédio incrível de Farroupilha. Dito assim, Muinho, como reinvenção e uma afronta à palavra original – simbolizando talvez o próprio horizonte urbano de uma cidade que precisa também ser reinventado, confrontado, revigorado no sentido de uma nova tradição.

Pois que tradição é herança, ancestralidade, os mortos que possuem os seus vivos: “És o que fomos, serás o que somos” – lembra o portal do cemitério de Flores da Cunha. Mas a tradição é feita também de rompimentos e superações, de fissuras e cortes profundos na carne da história.

Onde quero chegar? Chego às janelas algo gaudinianas de vidro e cimento do Muinho de Farroupilha para dizer que já não resta mais tempo para as cidades da região enxergarem nos escombros de seus patrimônios históricos uma valiosa ponte simbólica – e sólida, real – rumo à modernidade, ao contemporâneo. Quem tem ouvidos, ouça.

Caxias, a cabra teimosa – que bem viu Pozenato no poema Canto e blasfêmia para a Pérola das Colônias – devorou quase toda a sua esbelta urbanidade de madeira e alvenaria, vomitando caixotes toscos de cimento por décadas de tola pujança. Elegeu seus Neros até o incêndio do Cine Teatro Ópera, colocando em seu lugar uma garagem de automóveis, não sem o gran finale de uma clave de sol na fachada.

Cidades ricas como Flores da Cunha foram destruindo suas arquiteturas originais, sem ao menos propor releituras de estilos marcantes. Perderam suas identidades. Pior: viram emergir aqui e ali monstros da pavorosa estética da imitação de castelos medievais, em um novo feudalismo mental.

Farroupilha, pujante, não seria diferente. Mas eis que nas últimas duas décadas foi surgindo uma inusitada fachada no complexo do antigo Moinho Covolan, no centro da cidade. Onde havia estruturas decaídas, janelas e portas podres, brotaram mosaicos insinuantes de vidro, cimento e ferro. Por dentro, novos arranjos espaciais, entre objetos históricos e montagens livres de materiais reciclados. Obras de um jovem visionário do moinho, que salvou e reinventou o espaço, dando-lhe o nome provocativo: Muinho. Hoje o prédio é lugar de encontro e de movimentos coletivos de ativistas urbanos. 

O antigo e o supernovo se encontram na arquitetura pós-modernopsicodélica do Muinho, em diálogos para o futuro. 


 

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