André Costantin: Gótico amazônico - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião24/11/2017 | 09h48Atualizada em 24/11/2017 | 09h48

André Costantin: Gótico amazônico

Um caboclo vem nos receber, a remo: João Tapajós ¿ o sobrenome é o próprio rio

No Gaia se dorme em redes oscilantes, no jeito amazônico de viajar. Assim, perdemos o endereço, o chão da casa, o automóvel – e navegamos por longos dias no leito de uma terceira margem da existência.

Deixamos o atracadouro, onde flutua uma centena de gaiolas amazônicas de passageiros, constituindo a bonita e caótica urbanidade fluvial de Santarém. O Gaia se lança no Tapajós; somos seis passageiros e três tripulantes. A vizinhança afetiva das barcaças de madeira dá lugar aos cargueiros transoceânicos de soja e às balsas de toras, tracionadas por rebocadores, que no silêncio do longe vão drenando as veias do Brasil pelo Amazonas.

Três horas no Tapajós, a montante, e a proa do Gaia aponta para o leito do rio Arapiuns. No fim do dia chegaremos à primeira comunidade ribeirinha, Urucurea. Então o Gaia encosta em uma praia de areias claras e quentes de fins de outubro, antes da estação das cheias. Um caboclo vem nos receber, a remo: João Tapajós – o sobrenome é o próprio rio. Oliviero, senhor do Gaia, previne que naquela paragem, de madrugada, a mata densa além das margens emite um som fantástico, "como um furacão" – o canto dos guaribas, um tipo de macaco, primo do bugio ou ele próprio.

Enfim as redes do Gaia estão imóveis. Um sono pesado plasma a superfície daquela enseada do Arapiuns, até que no mais fundo do escuro da noite começa um ronco não humano, logo um grito, dois, cinco, muitos grunhidos loucos. Serão duzentos? Não têm compasso ou lógica, mas vão se tornando mais e maiores.

Quando o caos vocal chega a um máximo, começam uivos prolongados que – não eu, mas um maestro – deveria ouvir e tentar ordenar no coro de uma catedral gótica amazônica. O emaranhado de gritos agora é a subcamada de um tecido sonoro que lentamente vai entrando na mesma vibração, funda e gutural. O exército guariba, que jamais saberemos se tem 10 ou mil guerreiros, marcha uníssono para o grande ataque, que é quando as vozes sobem num tom maios alto, intenso e harmônico, imitando um vento dominante que vem da grande floresta, inconsciente do mundo.

A tempestade de som se estende até que os outros clãs guaribas da mata e outros seres, incluindo os viajantes do Gaia, entendam que ali há um império a ser respeitado. Então as mil vozes góticas cessam, intercaladas por três gritos, muito graves e muito rudes, saídos da garganta de um líder ancestral.

O vento guariba, furacão, é tão monstro e belo, que o mais cético dos viajantes não deixa de nele ver um sopro de Deus ou do demônio.

 

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