André Costantin: Gaia - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião02/11/2017 | 10h35Atualizada em 02/11/2017 | 10h35

André Costantin: Gaia

Não virei um peixe, mas já não afundo com as pedras jogadas na água

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

O teclado do notebook balança no horizonte líquido que se revela da popa do barco. O Gaia tem 14 metros de comprimento, com 20 toneladas. O peso vem da Itaúba que compõe as suas estruturas e casco, a madeira amazônica que não apodrece na água. Mas o Gaia mais parece uma casquinha de noz pintada de laranja, atracada na vizinhança de Dona Ines, uma balsa boiadeira capaz de levar cem cabeças, e dezenas de gaiolas amazônicas de porte, com capacidade para centenas de cabeças humanas.

No seu suave balanço em Santarém, motivado talvez pelas marés e contracorrentes que o rio Tapajós sofre no encontro iminente com o Senhor Amazonas, o Gaia deveria me arremessar à imaginação do destino que tomaremos amanhã: o Arapiuns, um tributário da Tapajós, rio de águas escuras e areias claras.

Mas não. A memória por certo é uma deusa líquida. E de repente estas águas me devolvem à difusa geografia de uma praia do sul, milhares de quilômetros daqui, na costa rude do Rio Grande do Sul. Esta imagem remota surge da visão do Amazonas, então já meio mar, logo adiante um Atlântico sul, diluindo a Terra, indo banhar um menino que chorava à beira-mar, com medo das ondas na praia de Rainha do Mar.

Era eu este menino. Além da memória, talvez algum velho slide dos anos 70 perdido em gavetas escuras também revele este primeiro homem que eu fui, basáltico, terra. Filho de camponeses, feito de madeira de araucária, tive na água o medo, o fascínio e uma descoberta sem fim ao longo da vida. Certa vez, cinco minutos de barco até a ilha de Anhatomirim me deixaram vergonhosamente mareado no mar catarina.

Cabra da serra, teimei com a água. Não virei um peixe, mas já não afundo com as pedras jogadas na água. Guardo em algum lugar o único diploma que me interessa, além do "Já sei ler" do primeiro primário: um certificado de navegação, não lembro de quantas milhas, num mar bravio da península Antártica, da Enseada Martel à Isla Decepcion, a bordo do navio polar Ary Rongel.

Agora, a tela oscilante do computador anuncia a navegação pelo Arapiuns. O pequeno Gaia é um barco-cinema, inspirado na história de Fitzcarraldo, clássico filme do cineasta alemão Werner Herzog, de 1982. Oliviero Pluviano, idealizador do Gaia, explica que desta vez o Gaia não levará filmes às comunidades isoladas da bacia amazônica, mas um inusitado teatro de bonecos de um artista napolitano. Quero perguntar para Oliviero as origens deste sonho. Mas farei isso apenas na viagem, com a câmera ligada. Uma boa história não se conta duas vezes da mesma forma.

 

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