André Costantin: Coração marítimo - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião09/11/2017 | 09h58Atualizada em 09/11/2017 | 09h58

André Costantin: Coração marítimo

Renascia então um barco, com a inusitada ideia de levar cinema para os povoados ribeirinhos

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Não consigo voltar da viagem. À noite, a cama parece excessivamente horizontal e imóvel, ancorada em sonhos caóticos. O lastro da casa é fixo. As estruturas de pinheiro do sótão lembram outra arquitetura de madeira, flutuante. Mas não há mais o balanço do casco de itaúba do Gaia, barco amazônico que se mistura à cidade de barcaças nos atracadouros de Santarém. Nem há redes de dormir balançando nas águas do rio Tapajós.

Antes de ser batizado Gaia, o barco era o menor de uma frota de três gaiolas amazônicas que levavam ações de saúde às comunidades do Tapajós e seus braços fluviais. A embarcação sofreu um acidente, naufragou, mas foi recuperada. Seguiu navegando, um pouco fora de nível, coisa que só olhos navegadores conseguem notar.

Um dia a modesta nave foi vista por olhos desse tipo: Oliviero Pluviano, a quem eu chamo Oli; genovês, jornalista, radicado em São Paulo há muitos anos. Renascia então um barco, o Gaia, com a inusitada ideia de levar cinema e outras artes para os povoados ribeirinhos naquela região do Pará. O Gaia, conta Oli, é tocado por um motor de caminhão – um Mercedes que tantas BRs deve ter galgado antes de virar cavalaria náutica. É um barco pequeno e rápido. Por isso já salvou muito caboclo picado de cobra nesses rios.

Nos últimos sete dias pude ver Oli a bordo, sentado durante horas na pequena proa do Gaia; cabelos brancos, atacando as ondas um tanto nervosas do Tapajós, depois deslizando pelo rio Arapiuns, de imensas praias e areais neste período de baixas margens na bacia amazônica. Muito antes destas águas, ele foi chamado de Oliveiro, o brasileiro, em outros quadrantes. Filho da antiga e portuária Gênova, cresceu vendo o pai chefiar um estaleiro. O irmão mais velho tinha um veleiro de duas "arvores" (mastros), onde Oli iniciava as práticas da navegação.

Mas seu talento era a música. Tocava órgão em uma igreja da cidade. Certo domingo, depois de uma missa, netos descendentes da família Costa – dona de um império de cruzeiros marítimos – vieram lhe dizer para procurar vaga de músico nos navios da companhia. Assim começou a vida de Oli nos navios de cruzeiro de bandeira italiana, russa e americana. A bordo do Oceanic, transatlântico de Nova York, tocava piano em uma das três formações musicais do navio: "era um magnífico Bechstein branco de cauda longa". Oli amava e executava clássicos do samba e bossa-nova. Era então Oliveiro, o brasileiro. E um coração amazônico o esperava no Brasil.

*Histórias a bordo do Gaia nas próximas crônicas.

 

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