Pedro Guerra: 50-50 - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião27/10/2017 | 15h00Atualizada em 27/10/2017 | 15h00

Pedro Guerra: 50-50

Enquanto eu me doava 90% (se não mais), aquilo que eu recebia em troca era ínfimo

Pedro Guerra: 50-50 Antonio Giacomin/Ilustração
Foto: Antonio Giacomin / Ilustração

É normal que todo adolescente rejeite qualquer conselho oferecido pelos seus pais. Eu fui assim, e acredito que você também. Nós reviramos os olhos e não absorvemos o que foi dito porque achamos que já sabemos de tudo. Ali na frente, porém, quando algo realmente chato acontece e a gente descobre que o colo dos nossos pais ainda é o maior porto seguro, nós recuamos. E foi assim que eu aprendi uma lição simples, básica, mas que eu precisava compreender com urgência.

A minha mãe disse que eu estava me doando demais. A sentença surgiu durante uma viagem ao interior, eu no volante e ela no banco do caroneiro que permaneceu ocupado durante anos por alguém que, segundo a minha nova conselheira, não tinha a mesma entrega que eu. Esse foi um daqueles dias emblemáticos em que a gente aprende algo novo e segura na memória o máximo que pode. Quando a minha mãe disse que todo e qualquer relacionamento deve ser 50-50, uma relação de igual para igual, foi como se eu encontrasse a bandagem para o meu ferimento.

Levei algum tempo para entender que as pessoas são diferentes da gente. Cada um expressa, age, fala e sente de um jeito. Eu sempre fui daquele tipo romântico-cafona que, nos dias de hoje, chega até a assustar. E foi justamente aí que errei: enquanto eu me doava 90% (se não mais), aquilo que eu recebia em troca era ínfimo. O que mais me assustou nisso tudo? Saber que a culpa talvez fosse minha.

Seja qual for o tipo de relação humana estabelecida, é imprescindível colocar-se no lugar do outro e tentar compreendê-lo. Quando eu me dei conta de que talvez estivesse recebendo 10% por não estar dando espaço para receber mais, foi quase como um carro se chocando contra a parede. Na ânsia de amar, eu acabei sem amor.

Passei os dias seguintes com a frase de Caio Fernando Abreu tatuada na mente: “estou tirando férias, dando um tempo disso, chega de amar, chega de me doar, chega de me doer”. A greve do amor estava definitivamente estabelecida.

Acontece que eu também estava errado.

Nenhum extremo vale a pena. E assim, sem querer querendo, descobri que o amor é uma balança. Não, nós não temos de economizar sentimento só para estar igualado ao outro. Doses de amor não devem ser medidas, racionadas. O ponto, na verdade, é bem simples: qualquer relacionamento sincero é equivalente. Hoje eu me doo 50% e não mais que isso. Já os outros 50% ficam para aquela pessoa que eu tinha esquecido de valorizar lá atrás e que hoje aprendi a amar.

Eu mesmo.

* O colunista escreve quinzenalmente.

 

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