Ciro Fabres: Pobre escola! - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião25/10/2017 | 14h35Atualizada em 25/10/2017 | 14h35

Ciro Fabres: Pobre escola!

Um de meus indisfarçáveis orgulhos é que estudei em escolas públicas a vida inteira

Dona Ana impunha autoridade pela presença, sem contestação. Quando Dona Ana aparecia, restabelecia-se a ordem como que por encanto. Mas é bom contextualizar: vivíamos no final dos Anos 60, época em que a disciplina era quase que imposta de cima para baixo, não era reconhecida como importante devido à contaminação do momento político-militar. Mas criava um ambiente propício ao bom funcionamento das atividades e ao aprendizado formal. Foi muito útil. Dona Ana não era dada a práticas autoritárias, não chegava a atemorizar. Apenas tinha mão firme, e assim se fazia respeitada. Era reconhecida como diretora de escola no Alegrete. Incorporava o estereótipo clássico. Era bom para a escola.

Um de meus indisfarçáveis orgulhos é que estudei em escolas públicas a vida inteira. E em universidade pública. Deu conta do recado. E mais: não bastassem ser públicas, eram escolas estaduais, o Grupo Escolar Demétrio Ribeiro, o Instituto de Educação Osvaldo Aranha. Era o tempo em que escola era chamada de grupo escolar. O Osvaldo Aranha era o Cristóvão lá de Alegrete.

Quase meio século depois, constata-se com perplexidade: o que foi feito das escolas? No que se transformaram, e não só as estaduais? A que ponto chegou a desvalorização delas, a partir da desvalorização do professor. Não pela prática pedagógica, que essa melhorou bastante. Mas pela desvalorização da parte dos governos e da sociedade. A escola agora faz pensar, que é sua função maior, formar cidadãos pensantes. E não conflita com a autoridade de Dona Ana, que deveria ser reconhecida hoje também. A fragilidade estrutural, no entanto, faz abalar o ensino formal, que não poderia ser negligenciado, sob pena de solapar as bases para qualquer pretensão de desenvolvimento. Mas governos e sociedade, incrivelmente, desprezam esse investimento estratégico. Não valorizam o professor e, assim, não valorizam a educação.

Então, o que temos é a escola como cenário e reflexo da crise sem fim da sociedade. Está no meio de nossas intolerâncias e incompreensões, que não querem saber de conversar sobre aspectos da realidade, que dizem respeito a escolhas individuais. Querem proibir. Temos o que aconteceu em Goiânia, temos o bullying. Antes de Goiânia, houve os episódios do Rio, da menina de 14 anos morta dentro da escola por uma bala perdida, dos aluninhos que cantavam no corredor enquanto as balas dos traficantes zuniam lá fora. Tem greve, salários atrasados, escassos, parcelados, carências inacreditáveis.

Pobre escola! Dona Ana saiu de cena no seu tempo, poupada de ver tudo isso. Escola deveria ser território sagrado. Mas é espaço maltratado, espezinhado, incompreendido. Não surpreende que tenhamos chegando até aqui. E provavelmente ainda não seja o fundo do poço.


 

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