André Costantin: Deus VT - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião26/10/2017 | 14h36Atualizada em 26/10/2017 | 14h36

André Costantin: Deus VT

Nosso barato existencial agora é ver e rever fragmentos da vida, ancorados na nuvem virtual

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

As duas palavras – ou siglas – do título desta crônica estão a milhares de anos distantes, mas exercem, cada uma em seu tempo, poderes absolutos sobre os desígnios humanos. Andam de mãos dadas, titereando a vida da gente: deus e videotape.

A primeira, deus, é eterna. Sigla complexa, inaugurada talvez nos primeiros sons guturais lógicos articulados por um hominídeo no elo evolutivo da espécie – ou no estalar das formas do barro primordial. Deus atravessa os séculos detonando o ibope, amém, elegendo deputados, erguendo templos de Salomão, catedrais ou igrejas de mundanos materiais de construção em favelas de toda a América ao Sul do mundo.

A outra palavra não passa de uma sigla vulgar: VT. É efêmera, artificial, feia, obsoleta, porém não menos demiúrgica. Servia para abreviar videotape, nos tempos áureos da televisão. Foi quando a imagem eletrônica, que já trafegava via satélite, passou a ser memorizada e codificada em uma fita magnética. Então a realidade poderia ser rebobinada e repassada, revelando a tragédia humana nos tubos de raios catódicos das tevês ad infinitum – na língua do deus mais próximo.

Antes foi o filme do cinema, em 24 quadros por segundo; depois foi o VT. Sobrevieram as câmeras digitais, telas planas, hard disks, servidores, garimpos cibernéticos, o escambau digital: formou-se a grande nuvem – nova narrativa de um gênesis googleano, quando deus se pôs a ordenar os elementos e renomeou o Espírito que vagava distraído sobre as águas.

O VT caiu em desuso. Permaneceu o conceito. Nosso grande barato existencial agora é ver e rever fragmentos sutis ou bestiais da vida, ancorados na nuvem virtual, centenas de vezes ao dia. Não se brinca com quem já foi deus. O ressuscitar ao terceiro dia do videotape se dará hoje à noite para milhares de almas aflitas, durante a transmissão do jogo do Grêmio pela Libertadores da América. Dos modelos que a sub-América preza importar do Norte civilizado, será introduzido mais este: o árbitro de vídeo. Trata-se de um sistema à moda VT, capaz de tirar dúvidas e reverter decisões do juiz em lances capitais dos jogos.

Eis a justiça digital, no continente dos caudilhos, ditadores, maradonas e macunaímas. No hay trampas! Nasce o árbitro replicante. Subtrai-se o humano, a dramaturgia do demasiado humano – essência de um futebol que existiu do lado de baixo do equador. O kikito de ator coadjuvante vai para... o juiz de carne e osso. O gol de mão do Maradona na Inglaterra não existirá mais. A mão de deus nos dá adeus.

* O cineasta André Costantin escreve às quintas-feiras.

 

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