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Opinião01/09/2017 | 16h46Atualizada em 01/09/2017 | 16h47

Nivaldo Pereira: O céu da pátria

Espio o céu daquele instante fundador do "independência ou morte", quando nasceste como nação, ó Brasil

Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Foto: Charles Segat / Ilustração

"Fala, Brasil, quero ouvir tua voz, apesar dessas barras pelaí". Evoco Gonzaguinha para louvar meu virginiano país, que aniversaria dia 7 de setembro. Mas celebrar o quê, em tempos tão sombrios? A sanha devoradora dos plutocratas finalmente assumida? O estado de servidão a que nos destina tantas tenebrosas transações? Sinto no peito tua depressiva dor, meu Brasil. Mas no clima de esperança que os aniversários suscitam, vislumbro uma reação tua, como na mesma canção de Gonzaguinha: "Mostra que a vida da gente é sempre maior do que toda e qualquer dor". 

Espio o céu daquele instante fundador do "independência ou morte", quando nasceste como nação, ó Brasil. O Sol identitário estava em Virgem no entardecer, naturalmente rico de talentos e recursos, mas dado a se valorar somente por olhos alheios. Há o dom de servir e acolher, que te faz humilde e trabalhador. Mas, oh!... Mercúrio, regente de Virgem, opunha-se a Plutão, bem no eixo das riquezas. Tanto negócio e tanta negociata, práticas de desde a colônia, seguirão escusas e comuns, sem que te dês conta que te lesam, ó jovem país. 

Preso a modelos alheios, sem assumir tua natureza única, haverá sempre a armadilha de buscares fora molduras de identidade — quando não alguém que te explore. Se o mundo te elogia, sobes aos céus. Tua Lua conjunta ao exagerado Júpiter já se apressa em criar orgulhos inflamados. Mas quando olhas para dentro, há apenas o efeito do que o também virginiano Nelson Rodrigues chamou de Complexo de Vira-lata. Assim não, Brasil! 

Agora sofres com as brumas enganosas de Netuno a cruzar o céu em oposição ao teu Sol, que também indica teus governantes. Tempo de insanidades e apatias. Desperta, Brasil, pois ninguém pode te salvar de cima para baixo! Não há saída fora da união de teu povo para além de suas diferenças. Por isso, não projeta tua raiva e frustração no que te desune. O inimigo real não é quem pensa diferente, mas o retrato deformado de ti mesmo, imposto por quem sempre te explorou. Meu Brasil, urge uma faxina virginiana em tua própria imagem e representações. Acorda! 


 

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