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Opinião08/09/2017 | 14h43Atualizada em 08/09/2017 | 14h47

Nivaldo Pereira: Brasil, utopia mestiça

O problema é que a ética e a hierarquia, assuntos jupiterianos, podem ser frouxas e regidas apenas pelos afetos lunares

Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Foto: Charles Segat

Ainda sobre o mapa astrológico do Brasil. É intrigante saber que o país é de Virgem, tradicional signo da ordem (lema de nossa bandeira), quando um eterno caos – ou, no mínimo, uma deliciosa "zueira" — parecem nos ser tão característicos! Reconhecemo-nos como um povo dionisíaco e sociável, dado a aglomerações carnavalescas, futebolísticas e religiosas. Boa parte desse traço leve e festivo, também afeito a descompromissos e desobediências, vem da Lua geminiana em conjunção com o inflado Júpiter. O problema é que a ética e a hierarquia, assuntos jupiterianos, podem ser frouxas e regidas apenas pelos afetos lunares. Como o Sol e a Lua estão em tensão no mapa astrológico brasileiro, nossa postura emocional passional (Lua) sempre atrapalha a construção racional da identidade virginiana (Sol). 

Na descrição do destacado caráter emocional brasileiro, o historiador Sergio Buarque de Holanda falou da tendência nacional de "viver nos outros". Gostamos de intimidade e companhia e detestamos formalismos e regras. O fato de o Sol poente no mapa do Brasil se afirmar a partir da relação com os outros, só potencializa a dificuldade em se constituir como identidade única, dentro das normas virginianas de ordem e rigor. Assim, negamos nossa originalidade e buscamos caber em modelos alheios. "São caboclos querendo ser ingleses", como canta Cazuza.

A solução? Parar de se mirar no espelho dos outros países e se descobrir. É sermos orgulhosamente caboclos e trabalharmos em prol dos valores dessa característica. Outro intérprete do Brasil, o antropólogo Darcy Ribeiro destacou nossa vocação para "florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesmo".

Com ascendente em Aquário, signo do futuro, o Brasil é uma eterna promessa. A possível utopia brasileira ressoa na visão atual de Eduardo Gianetti: "Uma nação que se educa e civiliza, mas preserva a chama da vitalidade iorubá filtrada pela ternura portuguesa". É trabalho e festa, cidadania e leveza, na exata medida virginiana. Bora lutar por isso?

 

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