Natalia Borges Polesso: Cortes - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião12/09/2017 | 08h00Atualizada em 12/09/2017 | 08h00

Natalia Borges Polesso: Cortes

Para me acalmar, uma mordaça. Não diga nada, me dizem. Silêncio, me dizem. Tudo ficará bem, me dizem

Natalia Borges Polesso

nbpoless@gmail.com

Começaram a aparecer uns cortes na minha pele. Nos meus braços, nas minhas pernas, na ponta dos meus dedos, nos meus joelhos e embaixo das minhas unhas. Esses cortes me impossibilitam movimentos mais amplos, faço tudo miúdo agora, baixinho, em silêncio, para não lacerar mais a pele, para não acabar por rasgar a carne. Não ando mais. Se me arrisco, é só uns passos. Mas não danço nem corro nem salto nem alcanço objetos que estão muito altos. Me resguardo. É melhor assim, me dizem. Então, tento manter tudo limitado ao meu campo de vista. Não movimento o pescoço. Tudo é mínimo, é próximo, é lento. 

Sinto frio. Sei. São os cortes. Vazam o calor. 

E não suporto mais companhia. E não tenho mais como sustentar conversas, não tenho vontade física nem mental, porque a dor é um reflexo excelente do corpo. E os cortes doem. Preferiria que alguém tomasse conta de mim. Mas não sei em quem confiar. Não sei se não se aproveitariam da minha debilidade para abrir ainda mais as feridas e explorar o que eu tenho por dentro. Não sei se não alcançariam meus órgãos e, ao observar seu funcionamento, sugeririam mudanças, desligamentos, quem sabe o que venderiam, sob o pretexto do bom funcionamento de uma coisa em detrimento de outra. Imagino a fala: ei, este coração bombeia sangue demais, vamos estancá-lo para que a sangria não seja vista nos cortes. E o que fazemos com um coração estancado? Não sei. Vendemos? Continuam explorando outras áreas: ei, este cérebro faz conexão com o sistema nervoso e não podemos aqui tolerar a dor, vamos dopá-lo, vamos desligá-lo, quem sabe, assim não teremos mais dor. Nem ideias. 

E continuam explorando meu corpo, aumentando os cortes, encontrando outras áreas, inibindo funções. 

Vou atrofiando lentamente. Até não ser mais eu. Até ser uma coisa sem nome. Uma coisa sem pertença. Uma porção disforme, boiando em águas turvas, para dentro das quais nada mais se enxerga. 

Para me acalmar, uma mordaça. Não diga nada, me dizem. Silêncio, me dizem. Tudo ficará bem, me dizem. Sigo sem saber se fui algo diferente ou se sempre foi assim. 

E, quando vem gente olhar, cutucam com uma vara, meio de longe e, ao observarem as reações descabidas do meu corpo, dizem: que país estranho! Que país bizarro este! 



 

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