Gilmar Marcílio: Seremos o que fomos - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião08/09/2017 | 08h00Atualizada em 08/09/2017 | 08h00

Gilmar Marcílio: Seremos o que fomos

Precisamos aninhar em nossa mente um grande número de memórias felizes

O presente contém também o passado. Estamos emocionalmente contaminados com as ações que compuseram os nossos dias. Tudo repercute, tudo está colorindo o que somos e o que nos tornaremos. Alertam-nos os psicólogos o quanto é preciso ficar atento a essas sombras que se esgueiram atrás de nós. Precisamos nos relacionar serenamente com elas. Felizmente não são apenas os traumas que ocupam o cenário. As lembranças amorosas também fazem parte da geografia interior. Pesquisas mostram que, quanto maior o número de memória felizes aninhamos na mente, maiores serão as chances de continuar caminhando por esta senda. É uma espécie de reserva para ser sacada a longo prazo, mesmo quando a velhice assoma e nos dispõe diante de possibilidades mais reduzidas. Contam aqui os bons relacionamentos, os filmes, livros e as músicas que soubemos apreciar como um refinamento da sensibilidade. Enganam-se os que pensam que deixar-se conduzir pelo senso comum, sorvendo unicamente o que nos oferecem como alimento pasteurizado, não traga em si malefícios para a alma. Em estado de vulnerabilidade, sempre fica algum resíduo que nos impede de caminhar sob o sol.

Imagino a vida como uma imensa catedral. Há que se cuidar com esmero dos alicerces para garantir a integridade da obra. Desde a mais tenra infância, quando se inicia o processo de educação, pais devem estar atentos para que a excessiva repressão ou a liberalidade em demasia não comprometam as decisões quando adultos. É sutilíssimo este universo chamado mente. Vislumbramos apenas a ponta desse imenso iceberg. Tudo o mais pertence ao inconsciente. Por isso a opção pela paternidade ou maternidade deveria receber um cuidado especial. Estaremos todos habilitados para tão exigente tarefa? Camadas se sobreporão a outras camadas até a derradeira hora. Encanta-me a ideia de que podemos ser, mesmo assim, artífices do nosso destino. Que com cuidado e dedicação tornamo-nos capazes de alterar o que parecia ter sido gravado na pedra. Ao fim e ao cabo, tudo se funde numa massa informe que chamamos de personalidade. Mas não há um ponto onde ela possa ser fixada. Ela é cambiante, provisória.

Portanto, mãos à obra. Culpar os outros ou as circunstâncias é o mais cômodo, mas não nos torna mais sábios. Penso que o uso prático da filosofia, a observação acurada de si é o melhor dos remédios para nos conduzir a uma vida feliz. E que outro propósito podemos almejar? Como prêmio extra isso vai se propagando em ondas. O que está bordado é apenas uma parte da tapeçaria. Há ainda muito o que se fazer. Olhos abertos e vontade de encher os cantis de alegria. A dor, em maior ou menor escala, fará residência em nós. Mas há, entre ambas, um fresta pela qual cada um pode passar. Carregando o que foi e se projetando para o tempo ainda não nascido.


 

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