Gilmar Marcílio: Que exemplo seguir - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião07/09/2017 | 14h40Atualizada em 08/09/2017 | 08h40

Gilmar Marcílio: Que exemplo seguir

Permanecemos tão encerrados em nossa individualidade que nem sempre entendemos as motivações alheias

Não sei lidar bem com pessoas grosseiras. Considero a delicadeza,o bom trato, virtudes capitais. No mínimo é muito mais simples agir assim, dá menos trabalho e não mobilizamos energia ruim. Sempre pensei que comportamentos de arrogância partem de pessoas infelizes, descontentes com o que fazem e com o que são. Quem está bem consigo, está em paz, não perde seu tempo dirigindo palavras ásperas a quem gravita ao seu redor. Elas já têm o seu castigo, não deveríamos nos preocupar com isso. 

Mas a verdade é que atitudes ríspidas acabam por nos desestabilizar emocionalmente,pois costumam surgir do nada, dificilmente sabemos o que as motiva. É como se, em pleno dia de sol, fôssemos surpreendidos por um raio fulminante. E por ser tão inesperado,rouba-nos a defesa, deixando-nos imersos em espanto e incredulidade. Há os que tiram isso de letra. Não faço parte da turma. Meu conforto é que tento transformar isso numa experiência filosófica, reafirmando a certeza de não ser essa a maneira com que procuro me relacionar.Prefiro baixar a voz, escutar algum impropério e depois refletir sobre a eventual parcela de culpa que me cabe.

Eis aqui algo que pode nos ajudar a entendera ira alheia. Passada a taquicardia, indago-me:Mas por que fulano disse isso e em tom alterado de voz? A tendência mais recorrente é de nos vermos como vítimas ocasionais de um ser desequilibrado. E muitas vezes é. Mas também pode ser que tenhamos a nossa responsabilidade. Que a mesma justiça que invoco para mim se estenda para o agressor. É difícil nos analisarmos com isenção emocional, mas devemos persistir nesse exame de consciência para que, em algum momento,possamos interromper esse ciclo que só traz malefícios aos envolvidos. 

Não tenho a grandeza de dar a outra face, como propôs Jesus, mas não sou nada afeito a entrar no ringue. Está longe de ser bonito ver duas pessoas destilando veneno em linguagem nem um pouco civilizada.Permanecemos tão encerrados em nossa individualidade que raramente entendemos as motivações alheias. E sempre as há. Não habitamos o mundo interior de ninguém. Oque para nós passa batido pode ser motivo de histeria para outro. E vice-versa.

Ah, como é bom encontrar alguém que nos acolhe com generosidade, alheio aos nossos defeitos. Que sabe tolerar algumas atitudes ou falas francamente desagradáveis. Em síntese,entende que tudo é possível no âmbito humano.Sei o quanto tenho a aprender ainda, mas me sinto esperançoso de não ter magoado muitas pessoas na vida. Ponderar antes de derramar veneno sobre alguém. Saber que podemos machucar indelevelmente e que algumas amizades podem não ser reconstruídas jamais.O exemplo a seguir é o da mansidão, do olhar que procura entender, que acolhe. É nesse reino que quero viver.

 

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